Início » Ingredientes » Os usos do óleo de rícino em cosméticos
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Há poucos dias ouvi o argumento de que o óleo de rícino é a matéria-prima preferida na fabricação de maquiagens em que é preciso dispersar os pigmentos (ex.: batom!) porque ele é muito barato. É óbvio que o custo é imprescindível na hora de se escolher uma matéria-prima, mas será que essa é a única característica do óleo de rícino que conta nesta decisão? Afinal, será que o óleo de rícino sempre foi barato? Ou ele se tornou barato em função do aumento da demanda?

Sementes da mamona, ricinus comunis
Semente da mamona.
Foto: Wikipedia / Reprodução.

O óleo de rícino, ou óleo de semente de mamona, ou ainda na nomenclatura INCI: Castor Oil (sim, Castor Oil é um óleo de origem vegetal e não animal, diferente de Castoreum, que é um produto de origem animal!), é extraído por prensagem das sementes da planta Ricinus communis, a mamona, aquela que tem uma semente tóxica que o então governador do Paraná vorazmente saboreou no Palácio do Planalto após receber uma amostra das mãos do então presidente Lula, num episódio cômico de proporções nacionais, ainda antes do advento do Facebook no país (sorria aqui!).

Apesar da semente de mamona conter a proteína ricina, altamente  tóxica, a tecnologia de obtenção do óleo de rícino garante a destruição (desnaturação, para ser mais acadêmico!) e a separação total e completa desta proteína do produto final, isto é, o óleo vegetal próprio e seguro para uso cosmético, farmacêutico e até alimentício, como já se observa há mais décadas que um ser humano normal costuma viver.

Como todo óleo vegetal, o óleo de rícino consiste numa mistura de triglicerídeos (isto é, um tri-éster formado por uma molécula de glicerina e três moléculas de ácido graxo), em que o ácido graxo mais comum é o ácido ricinoleico (85 – 95% da composição total). O ácido ricinoleico é um ácido graxo de 18 carbonos, distinto por conter uma insaturação (ligação dupla nos carbonos 9 e 10) e um grupo hidroxila ligado ao seu carbono 12. E nós fizemos questão de destacar essas características químicas pois elas são parte da explicação do porquê o óleo de rícino tem propriedades únicas para a cosmetologia.

Estrutura química do ácido ricinoléico, o principal triglicerídeo do óleo de rícino (mamona).
Estrutura química do principal triglicerídeo do óleo de rícino.
Foto: Wikipedia / Reprodução.

Uma das características exclusivas do óleo de rícino é que o grupo hidroxila presente no ácido ricinoleico torna este óleo relativamente mais polar que outros óleos vegetais, melhorando suas propriedades enquanto solvente e solubilizante, além de permitir a derivatização química desta molécula (1). Isso também torna o óleo de rícino solúvel em álcool e aprimora a sua capacidade de atuar como agente molhante de pós (2). Agentes molhantes têm a função de preparar os pós para interagir com líquidos, e o óleo de rícino faz isso muito bem no caso de pigmentos.

Além disso, o óleo de rícino é bastante viscoso e consegue manter esta viscosidade mesmo quando é aquecido, outro fator que contribui para que este óleo seja um agente suspensor ideal para pigmentos cosméticos. Em outras palavras, assim os pigmentos podem ser eficientemente dispersados em temperaturas mais altas, que são necessárias para a adição dos componentes graxos sólidos (ex.: cera de abelhas, cera de carnaúba, ácido poli-hidroxiesteárico etc.) em formulações como os batons e algumas bases. Finalmente, o uso deste óleo vegetal combinado com cera de abelhas, que é parcialmente solúvel no óleo de rícino, aumenta a viscosidade do sistema e previne o efeito de “sangramento” em batons, ou seja, a migração da fórmula através das linhas finas ao redor dos lábios (2).

Efeito de sangramento em batom, à esquerda.
Efeito de sangramento em batom, à esquerda.
Foto: Divulgação.

Uma das desvantagens do óleo de rícino, no entanto, é que conforme a qualidade ele pode ter um sabor mais ameno ou mais forte, por vezes perceptível em produtos para os lábios. E como todo óleo vegetal, o óleo de rícino pode se oxidar e se tornar ranço, afetando a estabilidade da fórmula. O uso de um antioxidante, como BHA, BHT ou vitamina E, é recomendado para conter as mudanças no odor e sabor do óleo de rícino em formulações cosméticas (2). Alguns formuladores não gostam muito do sensorial do óleo de rícino e a sua cor naturalmente amarelada pode interferir na coloração natural dos pigmentos. Alternativamente, existe no mercado alguns ingredientes que clamam substituir o óleo de rícino, oferecendo a mesma viscosidade e melhor estabilidade e textura, sem a desvantagem da cor, mas convém testar se a capacidade de dispersão de pigmentos desses novos ingredientes é suficientemente adequada para os processos produtivos que a sua empresa já está habituada.

Enfim, além do baixo custo, o óleo de rícino possui propriedades intrínsecas que não são encontradas em outros óleos e que o tornam adequado para a formulação de cosméticos coloridos, entre outros. Até porque, se fosse apenas uma questão de custo, o óleo de rícino já teria sido substituído por outros óleos mais amplamente difundidos como o óleo de soja, de milho, de girassol etc. Fique à vontade para usar e abusar do óleo de rícino em cosméticos, mas lembre-se de não comer as sementes de mamona in natura!

Referências:
1. Wikipedia.
2. BUTLER, H. (Ed.). Poucher’s perfumes, cosmetics and soaps. 10th. ed. Dordrecht: Kluwer Academic Publishers, 2000.
Ivan Souza

Ivan Souza

Coordenador de Conteúdo
Farmacêutico Industrial pela Universidade Estadual de Maringá (UEM). MBA em Gestão Empresarial (UEM). Doutor em Ciências pela Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo (USP). Experiência em pesquisa e desenvolvimento de inovações no setor cosmético e farmacêutico.

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