Início » Formulação » Qualidade microbiológica dos cosméticos
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Assim como a nossa pele (relembre no texto sobre o ecossistema da pele), os produtos cosméticos que utilizamos também contém micro-organismos. Sim, a maioria dos cosméticos que compramos não é estéril! Mas isso não quer dizer que representem um risco. Na verdade, muito dos alimentos e medicamentos que consumimos também não são estéreis, nem por isso causam algum dano relacionado à presença de micro-organismos. É fato que há um limite máximo previsto em lei para a contagem de micro-organismos que pode ser encontrada em uma formulação cosmética adquirida pelos consumidores. Se respeitados os devidos limites, entende-se que o cosmético é seguro.

A Resolução nº. 481/1999 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), e suas atualizações,  estabelece os parâmetros de controle microbiológico para os produtos de higiene pessoal, perfumaria e cosméticos no Brasil (veja o Quadro 1). De acordo com a norma, os produtos são divididos em duas categorias, conforme a área de aplicação e a faixa etária. Os cosméticos de tipo I são aqueles com controle mais rigoroso, ora porque são destinados ao público infantil ou pois serão aplicados na área dos olhos ou mucosas. Todos os demais produtos seguem os limites definidos para os cosméticos de tipo II. Em tese, nenhum cosmético deve conter qualquer contagem de Pseudomonas aeruginosa, Staphylococcus aureus ou Coliformes, já que tais micro-organismos podem ser bastante agressivos e causar infecções. Outros micro-organismos são permitidos até certos limites. Cabe aos fabricantes garantir que seus produtos atendam a essas determinações antes de chegarem aos consumidores.

Tipo I

 Produtos de uso infantil

Produtos para a área dos olhos ou mucosas

Micro-organismos mesófilos aeróbios totais: preferencialmente < 100 UFC/g ou mL de produto, máximo de 500 UFC/g ou mL de produto;

Ausência de Pseudomonas aeruginosa, Staphylococcus aureus, Coliformes totais e fecais em 1 g ou mL de produto;

No caso de talcos, ausência de Clostrídios sulfito-redutores.

Tipo II

 Demais cosméticos

Micro-organismos mesófilos aeróbios totais: preferencialmente < 1000 UFC/g ou mL de produto, máximo de 5000 UFC/g ou mL de produto;

Ausência de Pseudomonas aeruginosa, Staphylococcus aureus, Coliformes totais e fecais em 1 g ou mL de produto;

No caso de talcos, ausência de Clostrídios sulfito-redutores.

Quadro 1 – Parâmetros de Controle Microbiológico
Legenda: UFC: Unidades Formadoras de Colônia
Fonte: RES 481/1999, ANVISA.

 

Mas como os cosméticos são contaminados em primeiro lugar?

Em resumo, a contaminação de um cosmético se dá por meio dos insumos, do processo produtivo e da manipulação.

Primeiro, é possível que os insumos utilizados na fabricação dos produtos (ingredientes, embalagens, água etc.) sejam um foco de contaminação. Em particular, a água e os extratos vegetais, ou outros ingredientes de origem natural, são alguns dos principais veículos de micro-organismos ao produto acabado. Portanto, é preciso ter um rigoroso controle de qualidade sobre esses insumos. Se a água utilizada na fabricação tiver uma alta carga microbiana, o produto final tende a ter ainda mais micro-organismos.

Segundo, as diversas etapas do processo produtivo de um cosmético aumentam as chances de uma contaminação. A transferência dos insumos de um tanque ou reator para outro, a exposição ao ar ambiente e a qualidade da limpeza do maquinário industrial são alguns dos itens que devem ser repensados quando se depara com uma contagem excessiva de micro-organismos. Idealmente, o controle de processo já antevê medidas para reduzir ao máximo as chances de contaminação.

a manipulação de cosméticos pelos consumidores durante o uso é um foco potencial de contaminação microbiológica.
Aquele pincel usado pra se maquiar precisa ser bem higienizado ou substituído regularmente, a fim de evitar a contaminação do produto
Foto: steafpong / FreeDigitalPhotos.net

 

Enfim, após aberto e durante a manipulação pelos consumidores, as chances de contaminação dos cosméticos crescem exponencialmente. Idealmente, os consumidores devem manipular os cosméticos com a maior higiene possível, armazenando em local apropriado, lavando as mãos antes de cada aplicação e evitando o contato direto com o produto. Para reduzir a intensidade da contaminação durante o consumo, os fabricantes podem recorrer ao uso de conservantes antimicrobianos e, se possível, selecionar embalagens que restrinjam o contato direto da pele dos consumidores com o restante do produto no recipiente.

E como é feito o controle da qualidade microbiológica?

Embora a Res. nº. 481/1999 estabeleça os parâmetros microbiológicos, ela não define diretrizes para seu controle. Portanto, fica a critério do fabricante criar suas políticas de qualidade, bem como realizar e documentar testes que suportem a segurança dos produtos expedidos.

Idealmente, os fabricantes deverão realizar testes de contagem microbiana no produto acabado e também nos insumos e matérias-primas utilizados no processo produtivo (quando aplicável). O controle regular da qualidade microbiológica da água é imprescindível. A verificação contínua da eficiência da limpeza do maquinário por meio de uma contagem microbiana após o procedimento também é fortemente recomendada. Orientar e incentivar funcionários a lavar as mãos e a usar equipamentos de proteção individual (como jalecos, luvas, máscaras, toucas etc.) nas áreas de fabricação é sempre uma boa prática. Este conjunto de medidas, entre outras, é fundamental, principalmente quando se trata de um formulação livre de conservantes, ou seja, autoconservante (saiba mais aqui e também aqui).

É preciso ter cautela, observar, reclamar e denunciar os desvios de qualidade microbiológica em produtos cosméticos.
Exemplo de placa de contagem microbiana mostrando as Unidades Formadoras de Colônia (UFC) em azul.
Foto: Photokanok / FreeDigitalPhotos.net

Vale ressaltar que o sistema conservante deve ser entendido como uma ferramenta para controlar a contaminação microbiana que inevitavelmente será causada pela manipulação do produto. Os conservantes não devem ser entendidos como uma ferramenta de correção da qualidade do produto. Se a contagem microbiana do cosmético está acima dos limites antes da adição do conservante, há um risco muito grande de que a eficácia do conservante será reduzida, a ponto de que o produto ultrapasse os limites legais ao longo de seu prazo de validade.

Por exemplo, um cosmético tipo II com uma contagem inicial aceitável de 4500 UFC/g, está mais propenso a um risco microbiológico, dependendo das condições em que for armazenado durante o transporte ou durante o consumo. Ainda que tal contagem permita a aprovação do lote do produto, se futuramente algum consumidor(a) sofrer uma infecção ou injúria associada ao uso do produto, o fabricante pode ser responsabilizado.

Outro exemplo: um cosmético tipo I apresentou uma contagem de 510 UFC/g no dia em que sua fabricação foi finalizada. Após uma semana, o teste foi repetido e a contagem agora foi de 470 UFC/g. Muito provavelmente, a contagem reduziu pois o sistema conservante começou a agir. Sim, os conservantes precisam de alguns dias (ou semanas!) para reduzir significativamente o crescimento microbiano. Mas se a contagem microbiana inicial for muito alta, o conservante não será capaz de manter a qualidade do produto por um tempo de prateleira de 6 meses, 1 ano, 2 anos etc. Por isso que conservantes não devem ser usados para corrigir um lote! Seu objetivo é aumentar o prazo de validade de algo que já está bom! E não transformar algo “podre” em um produto reutilizável.

Enfim, a manutenção da qualidade microbiológica de um cosmético depende de esforços coletivos de fabricante e consumidor. Mas, claramente, é o fabricante que detém o controle sobre as medidas mais cruciais para evitar e controlar a contaminação microbiana.

Ivan Souza

Ivan Souza

Coordenador de Conteúdo
Farmacêutico Industrial pela Universidade Estadual de Maringá (UEM). MBA em Gestão Empresarial (UEM). Doutor em Ciências pela Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo (USP). Experiência em pesquisa e desenvolvimento de inovações no setor cosmético e farmacêutico.

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