Início » Editorias » Cosmetologia » É umectante! Ou será emoliente?
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Quando a nossa pele está desidratada ou ressecada podemos perceber aquelas escamas esbranquiçadas e ásperas (pensa naquele cotovelo branco!). Já os cabelos ressecados se tornam ásperos e sem brilho. As escamas ressecadas que percebemos visualmente ou no toque, na verdade, são células mortas que ainda não se desprenderam da pele. No caso dos cabelos, podem ser entendidas como as “cutículas abertas”. Basicamente, trata-se de queratina que perdeu boa parte do conteúdo de água que a mantinha hidratada.

Emolientes e umectantes retêm água na pele por vias diferentes, mas ambos culminam com o aumento da hidratação cutânea e/ou a redução da perda transepidermal de água.
O ressecamento da pele altera a textura e deixa o toque áspero. Emolientes e umectantes podem melhorar o aspecto da pele desidratada.
Foto: Ohmega 1982 / FreeDigitalPhotos.net

Nos casos mais comuns, o uso regular de um hidratante simplesinho já resolve o problema. Cremes, loções, géis ou condicionadores hidratam as escamas ressecadas, deixando-as mais maleáveis e transparentes, portanto menos visíveis, além de deixar a pele (ou os cabelos) mais lisa e macia. Existem diversos métodos para se hidratar a pele, porém os mais populares são o uso de emolientes e umectantes. Mas afinal, qual a diferença entre eles?

Há muita confusão desnecessária em torno dos termos emolientes e umectantes, talvez porque o setor cosmético é multiprofissional e nem todas as disciplinas estão habituadas com esta terminologia. E a confusão aumenta porque emoliente ou umectante são termos usados para se referir ora a um ingrediente, ora ao produto final. Então, vamos tentar desvendar este mistério passo a passo.

Emoliente

Emoliente vem do latim ‘emollire’ que significa ‘amolecer’. Já umectante significa meramente ‘umedecer’. Logo, em se tratando de um produto cosmético acabado, a diferença é que um amolece a pele e o outro umedece. Contudo, ao umedecer as escamas da pele, o umectante acaba amolecendo a pele, e por isso, os umectantes são também um tipo de emoliente. Da mesma forma, os óleos emolientes, ao lubrificarem a pele dificultam a evaporação da água, tornando a pele mais úmida. Assim, um creme emoliente ou umectante, é um cosmético que torna a pele mais macia e hidratada (também chamado de hidratante!).

O uso regular de cremes e loções contendo emoliente e umectante mantém a pele lubrificada e hidratada.
Emoliente lubrifica e umectante é higroscópico, mas ambos retêm água na pele.
Foto: imagerymajestic / FreeDigitalPhotos.net

Então quer dizer que emoliente e umectante são termos intercambiáveis? Na prática, depende! Se estivermos falando da função de um produto acabado sobre a pele, sim. Neste caso, quer se utilize o emoliente, o umectante, ou ambos, o efeito final será o mesmo – hidratar a pele. No caso dos ingredientes, não. Isso porque um ingrediente emoliente e um ingrediente umectante têm aplicações diferentes.

Os ingredientes emolientes, na sua função de amolecer a pele ou anexos, consistem em substâncias capazes de preencher essas escamas tornando-as mais flexíveis e lubrificadas, como se fossem uma graxa. Não é à toa que os ingredientes emolientes são óleos e gorduras, como óleos vegetais, manteigas, ácidos e álcoois graxos, petrolatos, silicones, ceramidas, esqualeno, colesterol e outros ésteres. Esses materiais preenchem os espaços entre as escamas e formam um filme fino e oclusivo sobre a queratina, o qual reduz a perda transepidermal de água (a evaporação da água da pele), consequentemente aumentando o conteúdo de água na epiderme (ou nos cabelos). Note que esses materiais não atraem a água, mas a repelem (são hidrofóbicos), tornando sua evaporação mais difícil.

Umectante

Já os ingredientes umectantes, são substâncias hidrofílicas, isto é, que têm alta afinidade pelas moléculas de água, pois são capazes de formar pontes de hidrogênio (reduzem a atividade da água!). Basicamente, os umectantes atraem a água livre que encontram na própria pele (ou cabelos), assim como a água que é proveniente dos cosméticos que aplicamos, evitando sua evaporação e, portanto, umedecendo a queratina. São exemplos de umectantes: os glicóis em geral (propilenoglicol, butilenoglicol, etilexilglicerina, caprilil glicol etc.); a glicerina; o sorbitol; os açúcares; a ureia; os polímeros hidrofílicos (carbopol, celuloses etc.); o ácido hialurônico; as proteínas hidrolisadas etc. Há evidências científicas de que concentrações de umectantes na ordem de 15-20% reduzem a perda transepidermal de água. Menos que isso pode não ser eficaz ou até favorecer a perda de água (depende dos outros mecanismos de hidratação também utilizados na fórmula!).

A água evapora em diferentes temperaturas, a diferentes velocidades.
Assim como a água evapora do nosso cafezinho a uma temperatura de aproximadamente 90ºC, ela também evapora da superfície da pele. Contudo, como a temperatura corporal é de 37,5ºC, esta evaporação é mais lenta e pouco perceptível. Emolientes e umectantes combatem a perda de água.
Foto: aopsan / FreeDigitalPhotos.net

Portanto, em resumo, emolientes e umectantes são adicionados em cosméticos para aumentar o conteúdo de água na pele ou nos cabelos (hidratar), embora façam isso por mecanismos diferentes! Os emolientes ainda trazem a vantagem de preencher e lubrificar as escamas, diminuindo o aspecto esbranquiçado (da pele) ou ressecado (dos cabelos).

Mas não é só isso! Os umectantes também têm uma função técnica na formulação. Devido à sua capacidade de atrair a água e evitar que ela evapore, os umectantes também retardam a perda de água da própria fórmula. Portanto, podem ser usados para impedir alterações na qualidade do produto. Isso é especialmente importante em formulações com alto teor de sólidos, como máscaras de argila, pastas ou cremes dentais. Concentrações de 1 a 10% de umectantes já garantem um bom desempenho neste sentido. Além disso, por tornar a água menos disponível, os umectantes acabam contribuindo com um efeito antimicrobiano, o que é muito interessante em formulações auto-conservantes, porém normalmente é preciso conservantes ou dispositivos adicionais para garantir uma conservação completa.

Embora sejam capazes de retardar a perda de água na pele ou nos cabelos, os emolientes não são tão eficientes em retardar a perda de água na fórmula. Os óleos emolientes ficam retidos nas gotículas da fase interna de uma emulsão, enquanto a água fica livre na fase externa e pode evaporar mais facilmente. O filme que os emolientes formam na pele não está presente na formulação. E essa é uma distinção importante entre os emolientes e umectantes.

Esperamos que a diferença entre emoliente e umectante esteja esclarecida! Mas escreva para nós caso ainda tenha dúvidas sobre este assunto. Até a próxima!

Referência:
BUTLER, H. Poucher’s Perfumes, Cosmetics and Soaps. 10th. ed. Kluwer Academic: Dordrecht – NL, 2000.
Ivan Souza

Ivan Souza

Coordenador de Conteúdo
Farmacêutico Industrial pela Universidade Estadual de Maringá (UEM). MBA em Gestão Empresarial (UEM). Doutor em Ciências pela Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo (USP). Experiência em pesquisa e desenvolvimento de inovações no setor cosmético e farmacêutico.

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