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O MEG, ou monoestearato de glicerila (INCI: glyceryl stearate), é um ingrediente bastante versátil e de bom custo-benefício, que pode ser usado como emoliente, espessante de óleos, agente opacificante, perolizante, antiaglomerante em pós e maquiagens, conservante em certas situações, e também co-emulsificante óleo/água (O/A) ou água/óleo (A/O). Quando misturado com aproximadamente 1-5% de sabões graxos, como o estearato de sódio ou potássio, chama-se MEG AE, ou MEG autoemulsionante (INCI: glyceryl stearate SE), e pode ser usado como emulsificante primário O/A em uma diversidade de formulações. Neste texto, vamos focar na função emulsionante ou tensoativa (relembre este conceito neste outro texto)

O MEG por si só é um emulsionante não-iônico A/O fraco (EHL = 3,8, calculado para 85% de monoestearato), nem sempre resultando em emulsões estáveis quando utilizado sozinho. Mas o MEG AE (aniônico) tem desempenho excelente (EHL variável entre 8 e 16), se formulado nas condições adequadas. Isso porque o MEG AE contém sais de um ácido graxo, ou seja, tem cargas negativas, o que o torna um tensoativo mais eficaz que o MEG, que é neutro e conta apenas com duas hidroxilas livres (grupos –OH).

Dependendo de com qual hidroxila (grupo –OH) da glicerina o ácido esteárico reage, o MEG pode ser chamado de alfa ou beta. À esquerda, o α-MEG, à direita o β-MEG. Também é possível encontrar o di ou triestearato, em que duas ou três hidroxilas foram substituídas por estearato.
Foto: Cosmética em Foco.

Mas vamos olhar mais de perto o nome químico deste ingrediente: monoestearato de glicerila. ‘Mono’ refere-se a um, neste caso, um ‘estearato’, ou éster do ácido esteárico (18 carbonos). Embora o MEG também contenha frações de ésteres de outros ácidos, como o ácido palmítico (16 carbonos). Já ‘glicerila’ faz referência à glicerina ou glicerol, que é uma molécula simples contendo 3 átomos de carbono e 3 hidroxilas. Basicamente, cada hidroxila da glicerina pode reagir com uma molécula de ácido esteárico ou palmítico, então, é possível encontrar mono-, di- e tri- estearato ou palmitato de glicerila. No caso do monoglicerídeo, a reação ainda pode ocorrer em dois carbonos diferentes, sendo que o produto é classificado em alfa-MEG ou beta-MEG. Na realidade, reações químicas são difíceis de se controlar com precisão, tão quanto é difícil e caro purificar o produto obtido, de modo que ao comprar o MEG grau cosmético, o cliente recebe uma mistura de todos esses compostos.

Por isso que, às vezes, pode ser desafiante formular com MEG. Diferentes fornecedores trabalham com diferentes purezas de MEG. Alguns MEGs encontrados no mercado podem vir com uma porcentagem maior de diestearato e triesterato, que têm pouca ou nenhuma atividade emulsionante (já que têm menos hidroxilas livres!), funcionando melhor como espessantes ou estabilizantes. Por exemplo, o Formulário Nacional da Farmacopeia dos EUA (USP-NF) diz que o MEG deve conter no mínimo 90% de monoglicerídeos. Já a Farmacopeia Europeia descreve o MEG 40-50 como uma mistura de mono, di e triglicerídeos dos ácidos esteárico e palmítico, contendo 40-50% de monoglicerídeos. Dessa forma, percebe-se que mudanças na origem ou no fornecedor de MEG podem resultar em alteração da qualidade e estabilidade do produto acabado! É recomendado conhecer bem as características e a sustentabilidade da cadeia de suprimento dos produtos que se adquire.

creme de manteiga de karité sobre mesa com flores de camomila
MEG e MEG AE podem ser utilizados para estabilizar e emulsionar cremes e loções
Foto: Freepik

Formular com MEG AE também pode ser desafiante. De fato, o MEG AE tende a resultar em emulsões O/A mais estáveis, já que usa a tensoatividade dos sais de carga negativa, estabilizada pela presença dos mono-, di- e triglicerídeos do MEG. No entanto, este produto foi desenvolvido especialmente para ser aplicado em formulações de pH neutro ou básico, já que o pH ácido tende a neutralizar as cargas negativas dos sais e diminuir a eficácia (e o custo-benefício!) do MEG AE, causando problemas de instabilidade. Mas não se preocupe, o mercado também oferece outras combinações de MEG com outros tipos de sais, como sais quaternários de carga positiva, que podem ser usadas em formulações de pH ácido com mais eficiência e melhor estabilidade. Neste vídeo do cformula, apresentamos um exemplo de formula com o MEG AE na fórmula Creme Hidratante com Vitamina E e Óleo de Baobá.

O legal é que o MEG e o MEG AE podem ser obtidos de origem totalmente vegetal ou mineral, sendo opções interessantes para formular cosméticos naturais ou orgânicos. Mas convém testar diferentes tipos de MEG, para que você tenha maior flexibilidade caso precise trabalhar com ingredientes de origens diferentes, sem ter tantas surpresas nos estudos de estabilidade!

Referências:
COSTA, P. H. G. S. Síntese de Monoestearato de Glicerila para Uso Cosmético: Comparação entre as Vias Química e Enzimática. Dissertação de Mestrado. Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2010.
Ivan Souza

Ivan Souza

Coordenador de Conteúdo
Farmacêutico Industrial pela Universidade Estadual de Maringá (UEM). MBA em Gestão Empresarial (UEM). Doutor em Ciências pela Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo (USP). Experiência em pesquisa e desenvolvimento de inovações no setor cosmético e farmacêutico.

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