A refrescância do mentol existe mesmo?

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Hoje nós queremos te mostrar o quão exigente você é. Sim, você mesmo(a)!

Você compraria um creme dental ou enxaguatório bucal que não deixasse a sensação de hálito fresco ao final da escovação? E um pós-sol que não oferecesse a sensação de alívio de calor após ser aplicado? Talvez um antitranspirante que não deixasse a pele fresquinha? Posso apostar que a reposta foi não. Acertei? Logo você é tão exigente quanto o consumidor dos produtos que você oferece.

Conhecendo as exigências dos consumidores, temos a possibilidade de modificar nossos produtos para irem de encontro a estes requisitos e o que era inicialmente um problema, transforma-se em uma oportunidade de melhoria. Neste caso dos exemplos dados acima, o que se espera é que tornemos estes produtos mais refrescantes.

Sabe quando você está sob um sol de 40°C e encontra uma água geladinha e um ventinho gostoso? É esta a sensação de refrescância!

Não são poucas as possibilidades que temos para tornar um produto mais refrescante, e algumas são bem simples: o aumento na quantidade de água ou de álcool da formulação já é capaz de fazê-lo em certos casos. Algumas matérias primas também podem ser adicionadas à formulação com este intuito. A mais popular delas é o mentol, um álcool obtido em forma de cristais incolores a partir da hortelã.

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Estudos realizados por Lasanen e colaboradores (University of Eastern Finland) e publicados este ano na revista científica Skin Research and Technology nos ajudam a entender um pouco melhor sobre a sensação refrescante proporcionada pelo mentol. Três géis foram testados: com 0,5%, 4,6% e 10,0% de mentol. Dois foram os testes realizados: 1) análise de imagens por infravermelho e 2) análise em escala visual analógica (VAS) (em que 0 corresponde à nenhuma sensação de refrescância e 100 corresponde à sensação de maior refrescância imaginada). Dez homens saudáveis de 25 a 30 anos participaram de ambos os estudos, sendo que o primeiro durou 90 minutos e o segundo foi realizado após 5 minutos da aplicação manual dos géis.

O que as imagens térmicas apontaram? Que os três géis diminuíram a temperatura da região onde foram aplicados em mais de 5°C, ou seja, a diminuição da temperatura independe da quantidade de mentol presente na formulação. O efeito refrescante proporcionado por todos eles durou no mínimo 40 minutos.

E a análise dos homens? Elas demonstraram que o gel com 4,6% de mentol foi capaz de oferecer sensação de refrescância mais pronunciada que os géis com 0,5% e 10,0%.

Os autores sugerem que a sensação de refrescância pode estar relacionada também à evaporação do gel, e não somente às matérias primas reconhecidamente responsáveis por este efeito. Uma forma de avaliar o efeito apenas do mentol seria aplicar o gel e, após sua absorção imediata, deve-se retirar o excesso para que se elimine a influência da evaporação na sensação de refrescância.

Outra observação interessante é a de que as áreas ao redor da área de interesse não tiveram suas temperaturas modificadas. Além disso, foi possível notar em 3 participantes que a temperatura da região estudada aumentou após o final da ação dos géis com 4,6% e 10,0% de mentol. Isso pode indicar o efeito das formulações sobre o diâmetro do vaso sanguíneo ou sobre o próprio fluxo sanguíneo. E por que estas evidências são interessantes? Uma vez que se reduz o fluxo sanguíneo, mesmo que por pequenos períodos de tempo, é possível reduzir os danos provocados por inflamações locais.

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Em resumo:
– Não, a maior concentração de mentol não implica em maior redução de temperatura, segundo os estudos de imagem em infravermelho.
– Sim, a concentração de mentol influencia a percepção de refrescância conforme estudos realizados com dez homens saudáveis.

É importante salientar que o estudo foi realizado com poucas pessoas e que as concentrações testadas não são adequadas para aplicação em produtos cosméticos conforme regulamentações relacionadas a estes produtos. No caso da legislação válida no Brasil, temos o Parecer Técnico nº 08/2005 da CATEC/ANVISA, que pode ser consultado aqui.

Ainda assim, os resultados obtidos são bastante interessantes para que entendamos também aqui a relevância da análise sensorial dos produtos em comparação a análises exclusivamente físico-químicas. Ao analisarmos apenas os dados fornecidos pelas imagens, optaríamos obviamente pela menor concentração de mentol (por questões de redução de custos, melhor aproveitamento de matéria-prima, etc). Contudo, esta concentração não foi capaz de fornecer ao consumidor a percepção de que a formulação era refrescante (mesmo que existam testes comprovando que ela o é!). A formulação ideal é aquela que encontra o equilíbrio entre ser de fato refrescante e dar a perceber que é de fato refrescante.

Embora o estudo aqui apresentado tenha focado especificamente no mentol e em sua propriedade refrescante, é fundamental que os formuladores estejam cientes de que os resultados encontrados são amplamente aplicáveis, ou seja, o aumento na concentração de algum componente da formulação não implica necessariamente em uma melhoria diretamente proporcional, e portanto óbvia e racional, dos atributos dela. Antes de tomar qualquer decisão sobre modificações na formulação, há se de estudar que sensorial ela é capaz de proporcionar.

Referências:
LASANEN, R. et al. Menthol concentration in topical cold gel does not have significant effect on skin cooling. Skin Research and Technology, v. 22, n. 1, p. 40-45, 2016.
Especificação técnica EMFAL.

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