Apliquei o creme sobre a pele. E agora? – Parte 2

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Conforme o texto anterior, já entendemos que não é tarefa simples para a formulação penetrar a epiderme, permear a derme e ser absorvida pela hipoderme. O caminho é bastante tortuoso e exige mudanças estruturais da formulação.

Supondo-se que estejamos falando de uma emulsão: enquanto ainda na embalagem, ela apresenta uma fase externa e outra fase interna. Ao ser espalhada sobre a pele, tanto moléculas polares quanto moléculas maiores ficarão à superfície, uma vez que não são capazes de penetrar o estrato córneo. Já as moléculas hidrofóbicas conseguirão atingir camadas mais profundas, exatamente pela semelhança química com a maioria dos componentes da pele (também hidrofóbicos). As moléculas menores também conseguirão atingir estas camadas, já que passam com mais facilidade pelos caminhos que as moléculas maiores não conseguem.

O estrato córneo é uma camada composta por células queratinizadas e possui apenas de 7 a 20% da quantidade total de água da pele. Assim, apresenta uma organização muito rígida, como “tijolos e cimento”. A hidratação adequada desta camada faz com que as células fiquem mais maleáveis e menos aderidas umas às outras, proporcionando um maior espaçamento entre elas e permitindo que as moléculas atravessem mais facilmente.

Muro antigo de tijolos em analogia com a anatomia da pele.
A pele é como um muro de tijolos.
Foto: 9comeback / FreeDigitalPhotos.net

A água presente na formulação pode ser em parte evaporada, juntamente à eventuais outros componentes voláteis, e também se unir a integrantes polares da pele ou ao NMF (Natural Moisturizing Factor). Já os compostos oleosos que não penetraram o estrato córneo podem formar um filme sobre a pele, conferindo poder oclusivo à formulação. Através de mecanismos diferentes, ambas as estratégias hidratam a pele e beneficiam o consumidor que aplica o creme com este propósito. Enquanto tudo isso acontece, o princípio ativo pode ser degradado por enzimas presentes na pele e/ou atravessar as camadas até seu local de ação.
Além da hidratação, a redução na espessura do estrato córneo através do uso de esfoliantes ou mesmo processos mais agressivos como peelings também favorece a permeação.

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Além dos fatores biológicos, outro fator que pode ser modificado é a formulação do produto! De acordo com a ação esperada, pode-se adequar a liposolubilidade, o tamanho da partícula, a concentração do ativo, o pH, etc.

É importante salientar que, dada a funcionalidade de cada produto, seus ativos devem atingir certas camadas da pele e isso está estreitamente relacionado ao objetivo ao qual o produto se destina. Ou seja, não é todo produto que deve obrigatoriamente atingir as camadas mais profundas, como a hipoderme. Ao contrário, muitos produtos cosméticos não devem atingir estas camadas, já que sua ação é tópica, e não sistêmica (relembre aqui o que são as vias de administração tópica e sistêmica).

Mulher com pote de creme para o rosto nas mãos
Os ativos cosméticos percorrem um longo caminho da embalagem até as camadas da pele.
Foto: nenetus / FreeDigitalPhotos.net

Ainda assim, para aqueles produtos que contém ativos que atuam em camadas mais profundas da pele, as estratégias apontadas talvez não sejam capazes de solucionar todas as dificuldades relacionadas à permeação, penetração e absorção dos produtos. Para driblar esta dificuldade, muito se tem pesquisado sobre como facilitar a passagem destes ativos por meio do uso de tecnologia, tal como através de encapsulamento, sistemas nanoestruturados, lipossomas e afins (leia mais aqui).

Como pudemos observar, muitos são os obstáculos mas muitas também são as estratégias adotadas para driblá-los. A proximidade com a tecnologia vem favorecer a ação dos ativos e das formulações como um todo.

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Referência:
HARRIS, M.I.N.C. Pele: estrutura, propriedades e envelhecimento. São Paulo: Senac, 2009.

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