Beleza: um conceito fluido

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Alguma vez você já parou para pensar o que é beleza? De onde vem esse conceito e qual seria a definição do belo? Desde muito cedo, filósofos discutem o assunto, mas nem por isso, a beleza tem uma definição ampla que abrange todos seus matizes. Ainda assim, não houve uma sociedade em qualquer época ou lugar que não se preocupasse com a beleza.

Por um lado, há uma ideia geral de que o belo e o bom se combinam esteticamente e se transformam em um ideal de vida. Do mito da caverna de Platão aos textos bíblicos, aprendemos que somos seres que se parecem com o belo, o bom e o sagrado (até que nos desviamos desse caminho).

Estátua conhecida como O Príncipe Helenístico.
Foto: Reprodução.

Nos diferentes períodos históricos e sociedades, as pessoas compartilham noções do que é belo e do que é atraente que evoluíram com a passagem das épocas. Desde a Antiguidade Grega o belo pode ser considerado expressão de uma simetria ou de uma conciliação entre os contrários; uma tensão delicada mantida entre coisas opostas. Diversas citações sobre beleza são atribuídas a Aristóteles, Platão e Sócrates, não obstante herdamos dos Gregos uma grande familiaridade e profundo respeito pela beleza e pela atração pessoal. Herdamos, também, essa concepção do belo clássico baseada na simetria, que tanto é repetida e representada em diferentes meios. Além de ser a referência estética da medicina para as diferentes intervenções estéticas tão populares atualmente.

Pela concepção do “belo clássico”, os sujeitos encontram a beleza maior na simetria. A base ideal da face, segundo essa concepção, é um conceito matemático, chamado “fi”, conhecido como proporção áurea, ou 1,618 numericamente falando. Tal proporção é ilustrada pelo Homem Vitruviano do pintor italiano Leonardo da Vinci. Há relatos de que essa proporção também foi encontrada na configuração do DNA. Algo compreensível e pouco transcendental se levarmos em conta que os cientistas que deduziram a estrutura tridimensional do DNA e inferiram seu mecanismo de replicação em 1953, James Watson e Francis Crick, são respectivamente, um biólogo e um físico e seguiram modelos matemáticos para isso.

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O homem vitruviano de Leonardo da Vinci.
Foto: wikipedia/divulgação.

Lesões de pele, piolhos na cabeça e dentes podres, por exemplo, nunca foram sinônimos de beleza. Enquanto o belo e o bom são uma combinação estética que se transformou em ideal de vida. O feio, por sua vez, foi tradicionalmente identificado como mau. Para os Hebreus e Cristãos, a beleza física era uma recompensa do Todo-poderoso, já a sua ausência era considerada punição.

Mas o feio não deve, e não pode, ser considerado simplesmente o contrário do belo. O feio é uma expressão estética tão importante quanto o belo. Os sociólogos brasileiros Muniz Sodré e Raquel Paiva publicaram o livro O império do grotesco, no qual descrevem a importância do grotesco não apenas na arte, mas na vida contemporânea. Para quem se interessa em beleza, a leitura é obrigatória. Para eles, o grotesco “é o belo de cabeça para baixo”, uma espécie de catástrofe do gosto clássico que causa estranheza e se torna risível. “Trata-se da mutação brusca, da quebra insólita de uma forma canônica, de uma deformação inesperada”, principalmente se as expectativas repousarem sobre o ideal Romano de atração pessoal que era a ausência de manchas ou defeitos físicos e uma relação harmoniosa entre as partes e o todo.

A edição nº 2067, de 2 de julho de 2008, da Revista Veja apresentou uma matéria especial sobre beleza. Na reportagem, o tópico principal eram os excessos cometidos por pessoas – com consentimento de seus médicos – em busca de um “padrão estético inatingível”. O texto cita pacientes que sofrem de transtorno dismórfico corporal, um distúrbio psiquiátrico tratado com antidepressivos e antipsicóticos. A pessoa com esse distúrbio submete-se a sucessivas cirurgias plásticas e adquire uma feição que se afasta do eixo de simetria que compreende o belo. Ela passa, muitas vezes, ao terreno do grotesco. Veja neste link alguns exemplos de celebridades antes e após a cirurgia plástica.

Donatella Versace antes e depois.
Foto: reprodução.

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Nós carregamos nossas imperfeições como se fossem espinhos, pois faz parte da nossa natureza cuidar da aparência, mesmo que a aparência não seja autêntica nem se refira em nada ao nosso caráter. Pergunte a qualquer pessoa, qual parte do próprio corpo ela não gosta…

Igualmente, permitimos que o que vemos de uma pessoa, influencie o que pensamos e acreditamos sobre ela. A partir do momento em que nascemos, durante toda nossa vida seremos julgamos silenciosa e inconscientemente por nossa altura, peso, forma e simetria facial, corte de cabelo, etnia, vestimentas e o que mais englobe o que se chama de atratividade física.

Uma coisa é certa: nosso gosto em relação à forma é surpreendentemente estável. Mas qual seria, afinal a definição de beleza?

Um dicionário pode definir da seguinte forma: Perfeição agradável à vista e que cativa o espírito; qualidade do que é belo. Aquilo ou aquele que é belo, formoso.

Mas o que é o perfeito? O que é belo e formoso? O que é belo no Brasil também é belo na Finlândia? Um homem ou mulher bonitos são bonitos em qualquer lugar do mundo? Há quem diga que não, mas também há quem defenda que sim. E você: qual a sua definição de beleza?

 

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Para quem tem interesse no assunto, dois livros são muitos úteis, veja os links abaixo (link afiliado):

Referências

BOAVENTURA, Gustavo Freire. Corpos perfumados: os homens em anúncios da revista Men’s Health. 2013. 128 f. Dissertação (Mestrado em Comunicação) – Faculdade de Comunicação Social, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2013.

JOLY, Martine. Introdução à análise da imagem. 11. ed. Campinas: Papirus, 1996.

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MACEDO, Otávio Roberti. A vaidade de todos nós.  In: CALDAS, Dario. Homens.  São Paulo: Ed. Senac, 1997.  p. 121-131.

PATZER, Gordon L. Looks: why they matter more than you ever imagined. New York: Amacom, 2008.

SODRÉ, Muniz; PAIVA, Raquel. O império do grotesco. Rio de Janeiro: Mauad, 2002.

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