Build-up nos cabelos

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Quando escrevi o texto sobre petrolatos em produtos para os cabelos (veja aqui), recebemos muitas críticas positivas e negativas, e confesso que adoramos todas, pois as críticas nos fazem refletir sobre a qualidade do nosso trabalho. Acredito que, apesar de termos esclarecidos algumas coisas naquele texto, geramos também mais dúvidas, especialmente sobre o build-up em cabelos e sobre duas afirmações categóricas que eu fiz na ocasião, as quais vamos rever aqui…

O que é build-up?

O build-up se refere ao acúmulo de produtos aplicados sobre os fios de cabelo entre as lavagens. Xampus, condicionadores, máscaras e afins são aditivados com substâncias sobre-engordurantes (repositoras de óleos e gordura!) e substantivas (moléculas carregadas positivamente) com o propósito de melhorar o aspecto do fio oferecendo hidratação e lubrificação. Em resumo, os sobre-engordurantes procuram repor o lubrificante natural produzido pelo couro cabeludo que é removido com as lavagens e tratamentos químicos. E os agentes substantivos ou condicionadores procuram regular a estática produzida pela interação de cargas negativas do cabelo e dos tensoativos presentes nos xampus (saiba mais aqui).

a lavagem dos cabelos seguida de condicionamento pode tanto causar quanto evitar o build-up
Lavar os cabelos – um mal necessário ou um bem mal-compreendido?
Foto: radnatt / FreeDigitalPhotos.net

O build-up é também um processo natural, uma vez que se não lavássemos o cabelo, o lubrificante produzido pelas glândulas sebáceas (tanto no couro cabeludo quanto o transportado pelas mãos!) se acumularia nos fios deixando o cabelo com uma aparência oleosa e difícil de manejar, podendo resultar até em doenças do escalpo. Por isso, insisto que a lavagem dos cabelos deve ser acompanhada de uma boa e eficiente massagem. Pode parecer óbvio para alguns, mas outros tendem a negligenciar isso, seja por descaso, desinformação ou por falta de tempo!

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Na verdade, o cabelo virgem é naturalmente revestido por um filme hidrofóbico (repele água!), isto é, uma fina camada do ácido 18-metileicosanóico (18-MEA). As técnicas de modelagem capilar modernas (alisamentos, progressivas, descoloração etc.) e também as condições ambientais removem essa camada e o cabelo tratado fica mais hidrofílico (repele óleos). Logo, o cabelo tratado perde o revestimento oleoso mais facilmente, necessitando de maior lubrificação que o cabelo virgem.

Portanto, como uma rotina de lavagem é imprescindível, os produtos capilares devem ser formulados para limpar e restabelecer ao menos a hidratação e lubrificação mínimas necessárias para manter a boa aparência dos cabelos. Assim, a adição de sobre-engordurantes e condicionantes é necessária, embora se saiba que algumas dessas substâncias podem se acumular no cabelo. Contudo, isso não significa que este acúmulo seja permanente ou irreversível, ou mesmo, indesejado!

Alguns ingredientes com potencial para o build-up

Entre os produtos comumente relacionados ao build-up pode-se citar os silicones, os petrolatos, os óleos vegetais, as ceras e manteigas, os polímeros e os tensoativos catiônicos. Estes produtos obviamente têm estruturas químicas diferentes, propriedades diferentes e também se acumulam no cabelo de forma diferente.

No texto sobre petrolatos, eu afirmei que esses ingredientes minerais não se acumulam no cabelo para sempre e que os agentes de limpeza capilar são suficientemente eficientes para removê-los.

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Em atenção às perguntas dos leitores, eu fiz uma nova busca e encontrei uma série de estudos da década de 1980 que analisam a eficiência de diferentes tensoativos em remover diferentes substâncias oleosas dos fios de cabelo. Note-se que os mesmos tensoativos ainda são usados hoje em dia!

Em geral, estes trabalhos consistiram na aplicação de uma mistura padronizada de óleos e ceras minerais e vegetais aos fios de cabelos, seguida de uma etapa de lavagem com uma solução a 10% de tensoativos diferentes (sulfatados e não-sulfatados). Os estudos observaram que os tensoativos sulfatados são mais eficientes que os não-sulfatados na mesma concentração (o que os seguidores das técnicas no/low poo sabem bem!). Outro resultado foi que os tensoativos removem mais facilmente os óleos vegetais (triglicerídeos) que a parafina (um tipo de petrolato). Um dos estudos também mostra que a lavagem contínua com lauril éter sulfato de sódio (Sodium Laureth Sulfate) facilita a remoção de todos os ingredientes estudados (até mesmo a parafina!) e previne o build-up, sendo que tal tensoativo atualmente é muito usado nos chamados xampus antirresíduos.

No entanto, algumas ponderações precisam ser feitas sobre esses estudos. A parafina e os outros petrolatos são quimicamente mais hidrofóbicos (repelente de água ou apolares) que os óleos vegetais e, por isso, são mais eficientes em impedir a perda de água dos fios de cabelo (isto é, teoricamente, são melhores hidratantes), ao mesmo tempo que exigem um pouco mais de trabalho para serem removidos na lavagem. Ainda que sejam mais difíceis de remover, os estudos mostram que as parafinas não são retidas nos cabelos eternamente. Na verdade, a maioria desses estudos foi realizada com apenas uma etapa de lavagem em uma solução a 10% de tensoativos. Mas, é possível encontrar no mercado alguns xampus com uma concentração maior de tensoativos e, conforme as instruções no rótulo, pode ser necessário aplicá-los duas vezes antes de usar o condicionador.

o build-up resulta do acúmulo do excesso de sobre-engordurantes e condicionadores nos fios de cabelo
Cabelos bonitos e saudáveis exigem uma rotina apropriada de lavagem, condicionamento e reposição de lubrificantes
Foto: marin / FreeDigitalPhotos.net

Além disso, xampus com tensoativos não-sulfatados (sulfate-free!), embora menos eficientes na mesma concentração, podem ser tão eficientes quanto os sulfatados se formulados em concentrações maiores e com diferentes combinações de tensoativos não-sulfatados. Portanto, neste aspecto, eu ainda me sinto seguro pra dizer que não há porquê ter medo dos petrolatos contidos em muitos produtos capilares. Talvez eles não sejam a melhor opção para você, mas isso não significa que sejam ruins para todo mundo!

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Uma última ponderação é que nesses estudos a mistura de óleos e ceras vegetais e minerais foi aplicada diretamente nos cabelos, quando, na maioria dos casos, o que se aplica é uma emulsão contendo também água e tensoativos. Como eu havia afirmado no texto de petrolatos, os tensoativos presentes nos produtos capilares já auxiliam na remoção dos sobre-engordurantes entre as lavagens. Mas, da maneira como esses estudos foram conduzidos, as condições reais de utilização dos produtos não são totalmente respeitadas. Nas condições desses estudos, remover a mistura de óleos e ceras fora uma tarefa ainda mais difícil que na vida real!

Eu também havia afirmado que não havia encontrado estudos dizendo que os óleos vegetais são mais eficientes que os petrolatos em termos de lubrificação e hidratação. Graças à participação dos nossos leitores, que nos mandaram algumas referencias, eu tenho uma ideia um pouco diferente agora! Ainda entendo que os petrolatos são mais eficientes para hidratar, isto é, para evitar a perda de água dos fios, já que formam uma barreira hidrofóbica melhor, independentemente da superfície sobre a qual são aplicados. Mas aprendi que não necessariamente serão melhores lubrificantes. A lubrificação pode acontecer na superfície dos cabelos, mas é ainda mais eficiente quando alcança também o interior dos fios.

Devido a sua baixa polaridade, os petrolatos tendem a permanecer na superfície dos fios (que são ligeiramente polares, especialmente no interior!), ao passo que alguns óleos vegetais têm maior facilidade em penetrar no interior dos fios que os de origem mineral. O estudo de Rele e Mohile, por exemplo, mostra que o óleo de coco é um melhor lubrificante que o óleo mineral e que o óleo de girassol. Ao mesmo tempo, o estudo também mostra que nem todo óleo vegetal é eficiente! De fato, um estudo feito no Brasil relata que os óleos de buriti, babaçu, andiroba e pequi não penetram no interior do fio. Como formulador, de qualquer forma, o meu posicionamento seria preferir uma mistura de matérias-primas de diferentes características físico-químicas. É mais provável que a combinação de ingredientes vegetais e minerais seja mais eficiente globalmente.

Já em se tratando de agentes condicionadores, um outro estudo mostrou que o peso molecular (o tamanho da molécula!) influencia inclusive a resistência do fio às agressões mecânicas (por exemplo, pentear e escovar). Condicionadores catiônicos de baixo peso molecular, como o CETAB (Cetyl Trimethyl Ammonium Bromide), tendem a penetrar mais facilmente no interior dos fios e aumentar a resistência. Já condicionadores poliméricos, como o PQ-10 (Polyquartenium-10), tendem a permanecer na superfície dos fios e não oferecem tanta resistência contra as agressões mecânicas. Curiosamente, há evidências de que a presença de PQ-10 numa formulação reduz o build-up de silicones entre as lavagens. Logo, percebe-se que o build-up temporário de algumas substâncias pode ser benéfico, até porque dificilmente tais substâncias permanecerão no fio para sempre.

Em resumo, um mínimo de build-up pode ser interessante para ajudar a proteger o cabelo e repor o sebo natural produzido pelo couro cabeludo. Além disso, o build-up de agentes condicionantes auxilia a controlar o build-up de agentes sobre-engordurantes. Contudo, o excesso de build-up pode dificultar o manejo (styling!) e deixar o cabelo com uma aparência indesejada, além de ocasionar doenças do couro cabeludo!

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o cabelo com aspecto de cabelo de milho pode ser evitado com lavagem e condicionamento apropriados
O excesso de build-up confere uma aparência indesejada aos cabelos e pode ocasionar doenças do couro cabeludo.
Foto: franky242 / FreeDigitalPhotos.net

Outros fatores que determinam o build-up

Além dos ingredientes da formulação, a intensidade do build-up entre as lavagens também é controlada pelos seguintes fatores:

  • a temperatura da água do banho (a remoção de sujeiras, sebo e substâncias acumuladas é menos intensa com água fria!);
  • a quantidade de vezes que se aplicou o xampu antes do uso do condicionador;
  • a qualidade da massagem (força mecânica) aplicada nos cabelos aumenta a eficiência dos tensoativos (agentes de limpeza), além de estimular a microcirculação no couro cabeludo (nutrição dos fios!);
  • cortar o cabelo com frequência regular também é um meio de se livrar do build-up, embora seja melhor percebido pelos(as) adeptos(as) dos cabelos curtos;
  • finalmente, a dureza da água, isto é, a quantidade de sais minerais na água da torneira, também interfere na eficácia dos xampus e pode ser uma das razões da insatisfação de alguns consumidores!

Mas não se esqueça: em se tratando de beleza, o que importa é a sua opinião! Teste diferentes abordagens até encontrar aquela que mais lhe agrada, pois é muito raro encontrar uma fórmula mágica que funcione para todos os problemas! Teste sim, mas teste com segurança e preferencialmente com o acompanhamento de um profissional qualificado.

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Referências
CLARKE, J.; ROBBINS, C. R.; SCHROFF, B. Selective removal of sebum components from hair by surfactants. J. Cosm. Science, 40:309-320, nov./dez. 1989.
CLARKE, J.; ROBBINS, C. R.; SCHROFF, B. Selective removal of sebum components from hair II. Effect of temperature. J. Cosm. Science, 41:335-345, nov./dez. 1990.
GRUBER, J. V.; LAMOUREUX, B. R.; JOSHI, N.; MORAL, L. Influence of cationic polysaccharides on polydimethylsiloxane (PDMS) deposition onto keratin surfaces from a surfactant emulsified system. Colloids and Surfaces B: Biointerfaces, 19(2):127-135, dez. 2000.
LOCHHEAD, R. Y. Shampoo and Conditioner Science. In: EVANS, T.; WICKETT, R. R. Practical and Modern Hair Science, cap. 3. Allured, 2012.

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RUETSCH, S. B.; KAMATH, Y. K. Penetration of cationic conditioning compounds into hair fibers: a TOF-SIMS approach. J. Cosm. Science, 56:323-330, set./out. 2005.
RELE, A. S.; MOHILE, R. B. Effect of mineral oil, sunflower oil, and coconut oil on prevention of hair damage. J. Cosm. Science, 54:175-192, mar./abr. 2003.
THOMPSON, D.; LEHMASTER, C.; ALLEN, R.; WHITTAM, J. Evaluation of relative shampoo detergency. J. Cosm. Science, 36:271-286, jul./ago. 1985.
VELASCO, M. V.; BALOGH, T. S.; KAGIYAMA, E. J. W.; DARIO, M. F.; GAMA, R. M.; BEDIN, V.; BABY, A. R. Influence of Brazilian vegetable oils on mechanical resistence of hair fiber. Biomed. Biopharm. Res., 12(1):99-106, 2015.
5 Comentários
  1. Letícia Diz

    Utilizar acido acetico (vinagre) antes de iniciar a lavagem com o shampoo é uma boa dica para retirar o build up dos fios. Como ha ligaçoes S-H pelo cabelo, os produtos acabam retirando esse H e se ligando ao S, assim permanecem no cabelo e vao se depositando. Entao, ao aplicar vinagre cujo pH esta em torno de 3,0, é retirado o produto depositado e o H do viagre se liga ao S.
    Muito boa a materia!

    1. Ivan Souza Diz

      Olá Letícia,

      Obrigado por sua participação! A deposição de produtos no cabelo também pode estar relacionada a outros tipos de interações químicas, mas é interessante ouvir sobre essa proposta de mecanismo para o ácido acético. De fato, o vinagre já era usado em produtos cosméticos há muitos séculos. Uma prática tão antiga que com o tempo até caiu em desuso. Provavelmente, devido ao mal cheiro após a aplicação. No sec XI o vinagre fora usado para tratar piolhos e agora no sec XXI há evidências de que possa aliviar a psoríase(1). Embora geralmente considerado como seguro, o vinagre contém de 4-7% de ácido acético e pode causar ardor nos olhos ou desequilibrar a microbiota do couro cabeludo em algumas pessoas. Em geral, o Cosmética em Foco não recomenda o uso de cosméticos caseiros, pois eles não passaram por alguma forma de controle de qualidade. Se algo acontecer com você, não dá pra reclamar com o fabricante de vinagre de mesa! Se mesmo assim o(a)s leitore(a)s decidirem usar vinagre em seus cabelos, devem estar cientes que um risco existe e ficar atentos ao menor sinal de mudança na pele ou escalpo. Se possível, consulte antes um dermatologista.

      1. Cavallo, P. et al. The first cosmetic treatise of history. A female point of view. International Journal of Cosmetic Science, 30(2):79-86, 2008. p. 82.

  2. Juliana Oliveira Diz

    Em todas essas matérias relacionadas a No e Low Poo, achei que ficou faltando analisar o aspecto principal: os sulfatos, usados por um certo período de tempo, danificam os cabelos? Porque, no fim das contas, esse é o cerne da questão em relação a essas técnicas. Os petrolatos e silicones insolúveis só seriam abolidos porque não são eficientemente removidos com o uso de shampoos mais suaves. Mas o que se prega é que são os sulfatos que realmente provocam o ressecamento do cabelo além do necessário para a limpeza.

    Se possível, gostaria de ver uma reportagem tratando desse ponto especificamente. Acho que os principais pontos a serem abordados seriam:
    1) se a utilização dos sulfatos resseca o cabelo (e se o simples uso de condicionadores é ou não capaz de repor o que é perdido durante a lavagem);
    2) se os shampoos suaves (usados no low poo) são capazes de promover uma limpeza eficiente dos cabelos ou se eles deixam algum tipo de “sujeira” que pode ser prejudicial.

    1. Ivan Souza Diz

      Prezada Juliana, muito obrigado por seu comentário e sinto muito por ter demorado tanto pra responder! Você tem razão, o grande cerne do movimento “no poo/ low poo” está no uso de tensoativos com sulfato, especialmente quando aplicados sobre cabelos cacheados. Vamos considerar a sua sugestão para um texto futuro, mas já posso deixar aqui a minha opinião.

      1) Em relação aos xampus sulfatados danificarem/ ressecarem o cabelo, eu entendo que não temos estudos suficientes na literatura para uma conclusão generalizada. Eu penso que esses xampus podem ser mais agressivos para alguns tipos de cabelos (como os cacheados) e mais amenos para outros (como os oleosos). Alguns estudos in vitro mostram que os xampus sulfatados reduzem o teor de proteína da fibra capilar… mas a maioria desses estudos foram feitos com cabelos ex vivo, ou seja, amostras de cabelos já cortados. Muitos cabeleireiros defendem a prática no poo/ low poo, assim como muitos não percebem a diferença. Então, na verdade, não há evidências suficientes nem do lado científico, nem do lado do profissional de beleza. Vou tentar fazer um novo levantamento pra ver o que há de novo na literatura, mas acho não encontraremos nada conclusivo. Portanto, testar e experimentar o que se adequa melhor ao seu tipo de cabelo continua sendo a palavra de ordem. Como os cabelos se renovam rapidamente, ao descobrir que um xampu não lhe faz tão bem, você pode trocar de produto e seu cabelo deve se recuperar em algumas semanas! Por isso, recomendamos testar, explorar as diferentes estratégias!

      2) Já quanto à eficiência dos xampus suaves ou “sem sulfato”, acredito que já respondemos sua pergunta ao menos parcialmente neste texto mesmo! Na mesma concentração, os xampus sem sulfatos são menos eficientes que os xampus sulfatados. No entanto, muitas formulações são desenvolvidas com um teor maior de xampus sem sulfatos justamente para compensar e obter um efeito mais semelhante. Sempre vai haver um certo nível de build-up, ou de “sujeira” deixada pra trás, mas isso não significa que seja necessariamente prejudicial, pois um pouco de build up também faz bem pros cabelos, como discutimos acima! Algumas linhas low poo recomendam intercalar o uso de xampus sem sulfatos com xampu antirresíduos, justamente para remover essa sujeira persistente. Novamente, é preciso experimentar para descobrir o que é melhor para o seu cabelo. Eu não acredito em fórmulas mágicas!

      Um abraço!

  3. […] você se interessou por esse texto, não deixe de ler nosso texto sobre build-up, lá tem informações atualizadas e que complementam esse texto sobre petrolato. Não deixe de […]

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