Em meio a uma pandemia do novo coronavirus SARS-Cov-2, causador da bem famosa COVID-19, a divulgação massiva da prevenção por meio da higiene adequada das mãos e o uso de álcool em gel, a busca por esse tipo de produto levou ao esgotamento deles no mercado. As pessoas desesperadas começaram a inventar meios de se fazer álcool em gel em casa a partir de produtos conhecidos, ao mesmo tempo em que empresários de todo o país correm para reabastecer o mercado com álcool em gel suficiente para toda a população.

Se você está interessado no assunto, não deixe de ler esse texto até o final. Como recebemos várias mensagens em diferentes meios nos últimos dias pedindo ajuda com fórmulas de álcool em gel, decidimos então falar sobre álcool, álcool em gel, desnaturante para álcool e até legislação. Lave bem as mãos, porque vamos aprender de uma vez por todas como fazer álcool em gel!

 

A prevenção está nas suas mãos

Os géis antissépticos e desinfetantes têm sido cada vez mais utilizados por consumidores, profissionais e empresas. Um grande motivo de sua crescente popularidade se deve a sua propriedade microbicida. Desde 2009 com o surto de H1N1 que o álcool em gel se tornou item queridinho de todas as bolsas, mochilas, pastas e bolsos.

Vírus e bactérias patogênicos podem causar doenças e sua principal forma de transmissão é por contato entre pessoas e objetos compartilhados. Aperto de mãos, maçanetas, corrimão, telefone, enfim qualquer objeto comum em locais públicos pode ser fonte de transmissão de germes. Quando o hábito de higiene e lavagem adequada das mãos são inadequados, a oportunidade para disseminação de doenças é ainda maior.

Nesse sentido, o álcool em gel se torna um aliado da saúde, mas não pode ser entendido como um substituto à lavagem das mãos com água e sabão. Lavar as mãos adequadamente após contato com superfícies e ao chegar de locais públicos (restaurantes, ônibus, trens, aviões, etc.) deve ser sempre a primeira medida. O uso do álcool em gel deve acontecer posteriormente ou em situações em que não é possível lavar as mãos. Por exemplo, ao sair do metrô quando ainda será necessário caminhar 10 minutos ou entrar em um ônibus antes de chegar ao seu destino, onde tenha pia e sabonete para a higiene das mãos.

Sem paranoia, ou exagero, esses são hábitos de higiene e devem ser seguidos em todas as situações da vida, não apenas em momentos de epidemia.

 

O que é o álcool em gel

Quando utilizados da forma correta, os antissépticos são eficazes no combate a contaminações e reduzem a presença de microrganismos nocivos à saúde, como vírus, bactérias e leveduras. No entanto, para que uma solução alcoólica tenha ação antisséptica e desinfetante ela deve ser 70% p/p (70°INPM) ou 77% v/v (77°GL). Na farmacopeia dos Estados Unidos (United States Pharmacopeia – USP), a monografia considera efetivas as concentrações de álcool etílico a partir de 60% v/v e álcool isopropílico a partir de 70% v/v. De modo geral, aceita-se que uma mistura hidroalcoólica tenha ação antisséptica entre concentrações de 60% a 90% p/p. [No final desse artigo esclarecemos a diferença entre °GL e °INPM].

Após destruir a membrana celular dos microrganismos, esses dois álcoois de cadeia curta em concentrações ideais, são capazes de desnaturar proteínas e enzimas em seu interior. Por essa razão que aumentar a concentração de álcool não vai necessariamente aumentar a eficácia contra fungos, bactérias e vírus. Ação do álcool em gel está intrinsecamente ligada ao fato de ser uma mistura hidroalcoólica.

Com 4 ingredientes é possível preparar um álcool em gel. Você vai precisar de álcool, água, um modificador de reologia e um alcalinizante. A escolha do espessante e neutralizante são cruciais e devem ser bem pensadas para se obter um gel espesso, transparente e que não escorra ou goteje. Os espessantes mais usados são os polímeros acrilatos, mais conhecidos como Carbopol e seus similares de mercado. Veja abaixo os principais tipos de espessante acrílico, mas se preferir também pode usar gomas e espessantes naturais.

INCI NameNomes comerciais
CarbomerAcritamer 934, Acritamer 940, Acritamer 941, Acritamer 951, Acritamer 980, Acritamer 981, Acritamer 996, Ashland 940, Ashland 980, Ashland 981, Carbocare, Carbopol 934, Carbopol 940, Carbopol 980, Carbopol 2984, Carbopol 5984, Carbopol Clear, Carbopol ETD 2050, Carbopol Ultrez 10, Carbopol Ultrez 30, Flogel FG 100, OptaSense G34, OptaSense G40, OptaSense G41, Rhocare C Plus, SuperGel CE, SuperGel SK, TC-Carbomer 390, iGel 940,
Acrylates/C10-30 Alkyl Acrylate CrosspolymerAcritamer 20, Acritamer 2020, Carbopol 1342, Carbopol 1382, Carbopol ETD 2020, Carbopol Ultrez 20, Carbopol Ultrez 21, iGel S9, OptaSense G82, Pemulen TR-1, Pemulen EZ-4U,
Polyacrylate-1 CrosspolymerCarbopol Aqua CC
Acrylates CopolymerAcritamer FD20, Acritamer FD21, Acritamer LP-1, Acritamer LP-2, Acritamer LP-3, Aculyn 33, Aculyn Excel, Avalure AC 120, Avalure AC 210, Carbopol Aqua SF-1, Covacryl A 15, Covacryl MS 11, Dermacryl C, Dermacryl X, iGel 200, Kleasol TVN, Kleasol TVNX, Luviflex Soft, Luvimer 100 P, Rheostyl 100, Rheostyl UP,
Acrylates Crosspolymer-4Carbopol Aqua SF-2

Entre os alcalinizantes, a trietanolamina (Triethanolamine) e aminometilpropanol (Aminomethyl Propanol), pois são os mais compatíveis com misturas hidroalcoólicas, veja na tabela abaixo.

Nome ComercialINCI NameMáximo de álcool
Hidróxido de Sódio (18%)Sodium Hydroxide20%
Hidróxido de Potássio (18%)Potassium Hydroxyde30%
TEA (99%)Triethanolamine60%
AMP Ultra PC / AngusAminomethyl Propanol80%
Neutrol TE / BASFTetrahydroxypropyl Ethylenediamine90%
Triisopropanolamine / DowTriisopropanolamine90%

 

Regulamentação da Anvisa para álcool em gel

A Resolução RDC 07/2015 determina que Gel antisséptico para as mãos é produto Grau 2 sujeito a registro.

De acordo com a Resolução RDC 46/2002 (clique no link para download do texto na íntegra), as preparações com álcool etílico hidratado devem seguir critérios de acordo com a graduação alcoólica. Acima de 54°GL deve ser comercializado na forma de gel desnaturado e no volume máximo de 500g em embalagens resistentes ao impacto. A venda em embalagens acima de 500g é proibida ao público, pois devem ter destinação exclusivamente institucional.

Conforme o texto alterado pela Resolução RDC 332/2002, a viscosidade dinâmica dos produtos na forma gel deve ser informada. Caso a graduação alcoólica seja até 68% p/p a viscosidade deve ser maior ou igual a 4000 cP a 25°C. Já para as fórmulas com graduação alcoólica acima de 68% p/p a viscosidade deve ser maior ou igual a 8000 cP a 25°C.

Todos os produtos formulados com álcool etílico hidratado deverão conter desnaturante para impedir o uso indevido. Na Nota Técnica n° 01/2019 (clique no link para download do texto na íntegra), há um bom esclarecimento de tópicos importantes sobre antissépticos a base de álcool, como aspectos da rotulagem. Veja abaixo o que diz o tópico 7.3:

Para os produtos que contenham graduação alcoólica acima de 54º GL e que não sejam destinados para uso em estabelecimentos de saúde: “Não utilizar em serviços de saúde.” “Antes de usar leia as instruções do rótulo.”, “Não perfurar a tampa.”, “Não derramar sobre o fogo.”, “Em caso de queimadura, lavar a área com água corrente.”, “Em caso de ingestão, não provocar vômito e consultar imediatamente o Centro de Intoxicações ou Serviço de Saúde mais próximo.”, “NÃO INGERIR – CONTÉM DESNATURANTE” e “O produto contem como desnaturante o ___________(Nome em negrito e em caixa alta), “PERIGO: produto inflamável”, “Manter afastado do fogo e do calor.” e “ATENÇÃO: Manter fora do alcance de crianças e animais domésticos.” (Em destaque). Deve conter também os símbolos de alerta da Norma ABNT NBR 5991:1997 (“inflamável” e “manter fora do alcance de crianças”). Orientamos ainda que deve ser observado o local de disposição e tamanho de alguns dizeres, conforme Anexos I e II da RDC nº 46/2002.

Recentemente, foi publicada a Resolução RDC 350/2020 (clique no link para download do texto na íntegra) que permite o preparo e comercialização de fórmulas oficinais de antissépticos a base de álcool do Formulário Nacional com prazo de validade de 180 dias.

O que é álcool desnaturado

No Brasil é obrigatória a adição de desnaturantes a qualquer preparação alcoólica para prevenir que ela seja usada como bebida. O etanol, álcool etílico, ou simplesmente álcool, tem diferentes classificações a saber:

Álcool etílico (etanol): certamente o álcool mais importante, com peso molecular: 46,07; ponto de ebulição: 78,4ºC; ponto de fusão: 114,4°C; índice de refração ( 20°C): 1,3610; densidade relativa: 0,805 a 0,812 (20 °C).

Álcool anidro: com um teor alcoólico superior a 99,3°INPM, em geral utilizado quando não se pode ter água no produto.

Álcool hidratado: com graduação alcoólica em torno de 93,2°INPM, é o álcool mais utilizado.

Álcool desnaturado: álcool com adição de substâncias para impedir seu uso em bebidas, alimentos ou produtos farmacêuticos.

O álcool desnaturado é o álcool adicionado de uma ou mais substâncias identificadas de sabor ou odor repugnante a fim de impedir seu uso em bebidas, alimentos e produtos farmacêuticos e não possuir efeito toxicológico que possa causar agravo à saúde.

Alguns dos desnaturantes mais utilizados em cosméticos são: isopropanol (Isopropyl Alcohol), benzoato de denatônio (Denatonium Benzoate), mentol (Menthol), vinagre (Vinegar), salicilato de metila (Methyl Salicylate), dentre outros. No entanto, apesar de serem eficazes em baixíssimas concentrações, não há no Brasil uma regulamentação que defina qual a concentração ideal de cada desnaturante, ficando a cargo da empresa a decisão e respectivo embasamento técnico.

Já no banco de dados de ingredientes cosméticos da Comissão Europeia (CosIng), estão classificadas como desnaturantes as substâncias da tabela abaixo, mas não são as únicas substâncias capazes de desnaturar o álcool.

Lista de desnaturantes para álcool

INCI NameCAS No.
1.ACETONE67-64-1
2.AMMONIUM HYDROXIDE1336-21-6
3.ANETHOLE104-46-1
4.BENZALDEHYDE100-52-7
5.BORIC ACID10043-35-3 / 11113-50-1
6.BRUCINE SULFATE4845-99-2
7.CAMPHOR464-49-3 / 76-22-2
8.CARAPA GUAIANENSIS SEED OIL352458-32-3/ 906347-26-0
9.CHLOROTHYMOL89-68-9
10.CINNAMAL104-55-2
11.CINNAMOMUM CASSIA LEAF OIL84961-46-6 / 8007-80-5
12.DENATONIUM BENZOATE3734-33-6
13.DENATONIUM SACCHARIDE90823-38-4
14.DIETHYL PHTHALATE84-66-2
15.EUCALYPTOL470-82-6
16.EUGENOL97-53-0
17.GLYCERIN56-81-5
18.MENTHOL1490-04-6 / 2216-51-5 / 89-78-1 / 15356-70-4
19.METHYL ALCOHOL67-56-1
20.METHYL SALICYLATE119-36-8
21.MIBK108-10-1
22.N-BUTYL ALCOHOL71-36-3
23.PHENYL SALICYLATE118-55-8
24.PINUS PALUSTRIS WOOD TAR8011-48-1
25.POLYSORBATE 809005-65-6
26.QUASSIA AMARA WOOD EXTRACT84604-10-4
27.QUASSIN76-78-8 / 75991-65-0
28.QUININE130-95-0
29.RESORCINOL108-46-3
30.SODIUM HYDROXIDE1310-73-2
31.SODIUM LAURYL SULFATE151-21-3
32.SODIUM MENTHYL SUCCINATE77341-68-5/ 97439-54-8
33.SODIUM SALICYLATE54-21-7
34.SUCROSE OCTAACETATE126-14-7
35.T-BUTYL ALCOHOL75-65-0
36.THYMOL89-83-8

 

Qual a diferença entre álcool em gel 70%, 70°INPM e 77°GL

Esse é um tema simples, mas ao mesmo tempo gerador de muita confusão. O percentual é uma forma internacional de se descrever fórmulas, uma vez que quando o formulador tem uma fórmula que fecha em 100% qualquer cálculo para necessidade de matéria-prima se torna mais rápida e fácil de ser convertida em gramas (g), quilogramas (Kg) ou toneladas (Ton). É a matemática a favor da química. Então um álcool em gel 70% é uma fórmula com 70% da matéria-prima álcool (Alcohol ou Alcohol Denat.).

Começa, então, a confusão: 70% de álcool em peso ou em volume? São 70mL de álcool em 100mL de mistura ou são 70g de álcool em 100g de mistura? São 70% da matéria-prima ou 70% do componente principal da matéria-prima? Calma! Não buga. Respira fundo e segue aqui comigo:

  1. A matéria-prima (ou ingrediente) álcool é comercializado de diversas formas para quem produz cosméticos. Pode ser o álcool anidro 99,3%, álcool anidro 99,8%, álcool hidratado 96%, álcool hidratado 93,2%, álcool de cereais 92,5% etc. Com isso, se utilizamos 70g de cada um desses álcoois para preparar 100g de álcool em gel, no final cada produto terá uma quantidade diferente de álcool. Para isso as conversões devem ser feitas para que no produto final sempre se tenha os 70% de álcool prometidos. Ou 60%, ou 65% ou 80% ou 90%, enfim, a quantidade de álcool declarada tem que estar no produto.
  2. O grau INPM se refere à definição dada pelo Instituto Nacional de Pesos e Medidas que é a fração em massa de teor alcoólico em uma solução aquosa. Essa graduação informa a quantidade de álcool em gramas em 100g de mistura. Isso significa que a cada 100g de um álcool 92,5°INPM, 92,5g são de álcool. Ou seja, o álcool 70°INPM contém 70g de álcool a cada 100g. É o mesmo que 70% (p/p) ou 70% (m/m) onde o ‘p’ significa peso e o ‘m’ significa massa. Na fórmula exemplo abaixo, utilizamos álcool de cereais 92,5°INPM para o preparo de um álcool em gel 70°INPM.
  3. O grau GL, ou grau Gay-Lussac é uma graduação internacional que corresponde à fração em volume de álcool em 100 mL de mistura hidroalcoólica. Dessa forma, em 100 mL de álcool 90°GL, 90 mL são de álcool.

Por essa razão que o álcool 77°GL é o equivalente ao 70°INPM, mas lembre-de o álcool etílico é um eficaz antisséptico em concentações de 60 a 90%°INPM. Eu poderia descrever os cálculos para converter grau GL em grau INPM, mas como estamos no Brasil devemos priorizar o nosso INPM. Também porque calcular baseado em massa (e não em volume) é muito mais lógico e prático.

 

 

Como fazer álcool em gel

Em nossa coluna Cformula, apresentamos um vídeo com exemplo de preparo da fórmula abaixo. Para ver mais detalhes dessa fórmula, clique aqui. Para ver mais vídeos com dicas de matérias-primas e formulações, inscreva-se em nosso canal do Youtube e ative as notificações para receber e primeira mão.

IngredienteFunçãoConcentração
1AquaVeículo21,05%
2Acrylates/C10-30 Alkyl Acrylate CrosspolymerEspessante0,50%
3Aminomethyl PropanolNeutralizante0,45%
4GlycerinUmectante1,00%
5Mentha Piperita OilPerfume0,10%
6ParfumPerfume0,50%
7PanthenolCondicionante da pele1,00%
8CI 42090 (and) CI 19140Coranteqs
9Alcohol Denat.Antimicrobiano75,40%

 

Se você tem alguma dúvida ou contribuição a esse artigo, sinta-se a vontade para comentar e enviar mensagens por e-mail ou nosso formulário de contato. Se você gostou do artigo e acha que ele pode ser útil para mais gente, ajude a divulgá-lo. Compartilha com seus amigos e não esquece de marcar nossos perfis para participarmos da discussão.

2 COMENTÁRIOS

  1. Excelente sumário! Curioso que a ANVISA regulamente a viscosidade do produto final. Imagino que seja por uma questão de segurança, para evitar ‘derrames acidentais’. Mas como ficam as preparações em spray? 8000 cPs não seria muito viscoso para um spray pump? Aqui nos EUA elas tem se tornado mais comuns.

    • Ivan, a justificativa para definir a viscosidade mínima é devido ao risco de derramamento mesmo. Quanto maior o grau alcoólico, menos o produto deve escorrer. Dependendo do espessante usado, daria para ser apresentado em spray, pois o produto ficaria fluido ao ser pressionado pela bomba. Mas, pela atual legislação, um spray líquido não poderia ser vendido no Brasil.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui