Ecossistema da pele: o microbioma cutâneo

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<< ATENÇÃO: CONTEÚDO FORTE PARA GERMOFÓBICOS!!! >>

Na maioria das vezes, nós não os percebemos, mas eles estão lá todos os dias se alimentando, se reproduzindo, alterando o nosso suor e odor, e também nos defendendo de invasores mais ameaçadores. A superfície da nossa pele é colonizada por todo um ecossistema microbiológico (o microbioma!) que pode ser tanto benéfico ou prejudicial, dependendo de uma série de fatores. Alguns produtos cosméticos se propõem a eliminar completamente as bactérias da superfície da pele, mas isso não é necessariamente ideal (saiba mais neste vídeo).

Apesar das variações nas condições ambientais (clima, poluição, aplicação de cosméticos etc.), a pele saudável é capaz de manter uma população microbiana estável graças ao controle fisiológico de seu pH e temperatura. Contudo, sabe-se que alterações no pH da pele estão associadas com condições dermatológicas como dermatite atópica, dermatite de contato, acne e infecções por Candida albicans. Por exemplo, o uso de sabonetes, detergentes e outros produtos cosméticos, em longo prazo, pode alterar o pH da superfície da pele e a composição da microbiota por um curto período, eventualmente provocando irritação. Logo, o uso de agentes de limpezas de pH ácido (ex.: sabonetes líquidos) é preferido frente aos de pH básico (ex.: sabonetes em barra).

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A nossa pele é colonizada por todo um sistema de micro-organismos invisíveis a olho nu.
Foto: Photokanok / FreeDigitalPhotos.net

O papel dos micro-organismos na pele

A função da microbiota intestinal é bem estudada e sabe-se que algumas bactérias até mesmo complementam a função do nosso sistema natural de defesa. No entanto, a microbiota da pele ainda carece de mais estudos.

Em geral, a relação micróbio – humano pode se dar da mesma maneira que a relação humano – humano, quer dizer: 1) ambos são beneficiados (mutualismo); 2) o micróbio se beneficia mas para o humano a relação é indiferente ou pacífica (comensalismo) ou 3) para o micróbio conseguir o que quer ele precisa nos prejudicar (parasitismo). No entanto, essa relação bactéria – hospedeiro é bastante complexa, já que o mesmo tipo de micróbio pode assumir os três papéis em diferentes condições! Na verdade, a capacidade de defesa da pele do próprio humano é o principal fator a determinar se o micróbio terá a chance de atuar como parasita, comensal ou mutualista.

A identidade dos micro-organismos na pele

A diversidade de bactérias identificadas no microbioma da pele humana expande significativamente e continuará a crescer. Mas entre os gêneros mais comumente encontrados destacam-se: Staphylococcus; Micrococcus; Corynebacterium; Acinetobacter; Propionebacteria (associado à acne!) e Brevibacteria. Já as espécies Staphylococcus aureus; Streptococcus pyogenes; Escherichia coli e Pseudomonas aeruginosa são transitórias.

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O Staphylococcus epidermidis, uma bactéria em forma de coco que normalmente anda em grupos formando uma colônia de cor branca ou bege, é a espécie predominante na microbiota cutânea. Como seu crescimento na pele saudável é controlado, essas colônias não são visíveis a olho nu. Normalmente, o S. epidermidis é bastante inócuo e comensal, mas tem emergido como uma causa de infecções hospitalares em pacientes comprometidos com doenças imunológicas. Por outro lado, estudos recentes sugerem uma relação mutualista entre o S. epidermidis e a pele, já que tal micróbio produz substâncias (bacteriocinas) capazes de controlar a população de Staphylococcus aureus e de alguns Streptococcus, espécies mais virulentas. Além disso, alguns autores sugerem que a presença do S. epidermidis na pele aumenta a eficiência dos nossos sistemas naturais de defesa.

Como será que os cosméticos interferem com a microbiota da pele?
Foto: Viacheslav Blizniuk / FreeDigitalPhotos.net

Já o Staphylococcus aureus, outra bactéria em forma de coco que anda em grupos que formam colônias de cor amarelo-dourada, é um dos patógenos mais comuns na nossa pele. As infecções causadas por S. aureus podem se limitar à pele ou tornarem-se mais invasivas e graves, causando septicemia e outras reações. Infelizmente, alguns grupos de S. aureus evoluíram o suficiente para serem resistentes até mesmo a antibióticos, de modo que são uma grande preocupação em casos de infeções hospitalares. Contudo, ter a pele colonizada por S. aureus não significa que você está infectado. Mais de 30% da população convive com o S. aureus e raramente desenvolvem um problema de saúde. Trata-se de uma bactéria oportunista, que geralmente é bem controlada por nosso sistema de defesa, especialmente quando se tem o auxílio de outras bactérias da nossa microbiota. Na verdade, o próprio S. aureus produz substâncias que impedem o crescimento de outros S. aureus de uma cepa mais virulenta.

O gênero Corynebacteria também é encontrado na pele e pode ser tanto comensal quanto parasita. Como parasita, destaca-se a espécie Corynebacterium diphtheriae, associada à difteria, uma doença das vias respiratórias que hoje se encontra em grande parte controlada por causa dos programas de vacinação. Já a espécie Corynebacterium jeikeium é a mais comum na pele humana dentro deste gênero e, em casos raros, pode evoluir para patógeno em hospedeiros comprometidos, principalmente quando hospitalizados. Contudo, para a maioria da população, o C. jeikeium é altamente inócuo e pode oferecer proteção à epiderme. Esta bactéria recolhe ferro e manganês da superfície da pele, os quais são essenciais para o crescimento de micróbios virulentos. Além disso, o manganês absorvido é utilizado para proteger o C. jeikeium de radicais livres, e alguns cientistas acreditam que tal bactéria possa proteger também a nossa pele do mesmo tipo de agentes oxidativos (bactéria anti-idade!).

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Enfim, há muitas espécies que colonizam nossa pele. Em condições normais, a pele saudável consegue manter a microbiota equilibrada, evitando que micro-organismos mais patogênicos predominem e eventualmente causem uma infecção. Na verdade, alguns dos micróbios colonizadores até auxiliam o nosso sistema de defesa no combate e prevenção de patógenos. Portanto, não é totalmente adequado que os produtos cosméticos “vilanizem” os micróbios. Inclusive, são necessários mais estudos para compreendermos o quanto o uso rotineiro de cosméticos interfere na microbiota da pele. Quem nunca disse ou ouviu falar o seguinte: “usei esse produto e me deu espinha!”. Normalmente, associamos isso ao conteúdo de óleos, ceras e outros emolientes mais pesados (comedogênicos!) do produto. Mas é possível também que tal cosmético tenha causado um desequilíbrio na microbiota do consumidor. Hoje, nós formuladores ainda não temos um entendimento completo da relação micróbio – humano – cosmético.

De qualquer forma, lembre-se sempre: onde quer que você vá, você não está sozinho! Bilhões de bactérias te acompanham e algumas delas estão protegendo você e sua pele! Cuide bem delas! Mantenha uma higiene adequada e prefira produtos com pH neutro ou fisiológico.

Referências
ANSARI, S. A. Skin pH and skin flora. In: BAREL, A. O.; PAYE, M.; MAIBACH, H. I. Handbook of cosmetic science and technology. 3rd. ed. New York: Informa Healthcare, 2009. Cap. 21.
COGEN, A. L.; NIZET, V.; GALLO, R. L. Skin microbiota: a source of disease or defence? British Journal of Dermatology, v. 158, n. 3, p. 442-455, mar. 2008.
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Por Ivan Souza

Coordenador de Conteúdo. Farmacêutico Industrial pela Universidade Estadual de Maringá (UEM). MBA em Gestão Empresarial (UEM). Doutor em Ciências pela Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo (USP). Experiência em pesquisa e desenvolvimento de inovações no setor cosmético e farmacêutico.