História dos cosméticos da Antiguidade ao século XXI

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Desta vez vamos falar um pouco da História dos Cosméticos! Afinal, é muito importante para nós que atuamos na área cosmética entender como os cuidados com a beleza evoluíram até assumirem o formato que conhecemos hoje! Na verdade, a história dos cosméticos forma uma narrativa paralela à história da humanidade, evoluindo junto a ela, conforme ilustrado na linha do tempo apresentada. Este texto é uma reprodução atualizada de um excerto da minha tese.

Desde os tempos pré-históricos (por volta do ano 30.000 a.C.) que se relatam as práticas de adorno e camuflagem da pele e dos cabelos. Nesta época, as pessoas limitavam-se a colorir o corpo como uma forma de proteger-se ou de intimidar seus inimigos, sejam eles outros humanos ou animais.

Na história dos cosméticos a pintura corporal é uma das formas mais antigas de expressão.
A pintura corporal é uma das formas de expressão mais antigas, em diferentes civilizações.

Com a formação das primeiras civilizações (por volta do ano 3.000 a.C.), os rituais de beleza foram difundidos a partir dos primeiros egípcios, indianos e orientais, que desenvolveram cosméticos e práticas similares. Os verdadeiros cuidados cosméticos começavam a emergir.

No Egito Antigo (de 3.000 a.C. a 200 d.C.), entre os conhecimentos transmitidos de geração para geração, citam-se o uso do mel, do leite e de farelos vegetais para fazer pastas; bem como o emprego de gorduras animais e vegetais ou de cera de abelhas para fazer cremes para a pele. Homens, mulheres e crianças usavam uma espécie de maquiagem para se proteger dos raios do sol. O uso de óleos perfumados e de essências como tomilho, olíbano, cânfora e mirra também era bastante difundido (leia nesse texto um pouco da história da perfumaria). A prática de tingir o cabelo já fora relatada desde este período.

Na Grécia e na Roma Antigas (por volta do ano 200 d.C.), os homens frequentavam casas de banho elaboradas e as mulheres cuidavam da beleza em casa. Algumas das fragrâncias extraídas nesta época eram provenientes do anis, da pimenta, do alecrim, da sálvia e da hortelã-pimenta. O leite de jumenta era usado para manter a tez fresca e a massa de pão úmida servia como máscara noturna. O material graxo da lã de ovelha (precursor da lanolina!) também tinha suas aplicações nos cuidados de beleza.

Particularmente entre os romanos, são relatados o uso de chumbo branco (ainda bem que evoluímos neste aspecto!) e pó de giz para embranquecer a pele, assim como de manteiga e farinha de cevada para tratar a acne. Nesta época, o médico Galeno contribuiu com a cosmetologia ao desenvolver uma pomada refrescante conhecida como “ceratum refrigerans”, precursora do “cold cream”, a qual consistia na incorporação do máximo possível de água de rosas em uma mistura (1:4) de cera de abelha e óleo de oliva.

Quando a Europa entrou na chamada Idade das Trevas (do século V ao X), os cuidados cosméticos foram deixados de lado naquela região, sendo apenas disseminados por aqueles que viajavam entre a Europa e os países do Oriente (China, Japão, Índia etc.). A Índia e os países árabes acumularam a maior parte do desenvolvimento científico da época, mas a evolução do conhecimento em cosmetologia foi incipiente. Os cuidados com a higiene eram extensamente praticados por esses povos, se comparados aos europeus. No Oriente, por exemplo, a pasta de amêndoas substituía os sabões na ocasião do banho. Além disso, os métodos de destilação foram aprimorados, de modo que se obteve novas drogas e ingredientes. O médico Avicena se especializou na destilação de essências de flores. A cosmetologia acompanhava o desenvolvimento da medicina.

No entanto, no século XI, o Império Islâmico começou a declinar e sua influência esmaeceu. O conhecimento e a ciência voltaram a brilhar na Europa, especialmente na França, na Itália e na Espanha, que se beneficiaram dos trabalhos desenvolvido pelos árabes. A compreensão sobre o preparo e a identificação de fármacos evoluíra e, a primeira farmacopeia fora autenticada, isto é, a obra Nicolae Antidotarium.

A evolução da tecnologia de cosméticos da Antiguidade à Revolução Industrial.

Na Era da Renascença (entre os séculos XIII e XVI), a Europa voltou a ser um ponto focal da civilização. O comércio, as viagens e as Cruzadas entre a Europa e o Oriente, e por consequência a troca cultural, eram bastante intensos. Alguns dos materiais trazidos do Oriente foram os corantes naturais, o óxido de zinco, o óleo de rícino, a salsaparrilha, a terebintina, o enxofre e também o açúcar, que na época era caro e usado apenas como medicamento. Neste período, o tratamento para a acne consistia em cobri-la por uma hora com enxofre e terebintina em pó e, depois cobrir com manteiga fresca. E para se obter cabelos da cor de fios de ouro, aplicava-se um composto de alúmen, enxofre e mel e expunham-se os cabelos ao sol por algumas horas. Na cidade de Montpellier na França, que abrigava algumas das mais renomadas escolas europeias, Henri de Mondeville descrevia tratamentos para queimaduras, pomadas, sabões e tintas para cobrir os efeitos da idade e também propunha a separação entre os tratamentos para doenças da pele e os cosméticos para o embelezamento.

Na Era Elisabetana (século XVI), o uso dos cosméticos disseminou-se pelas cortes e aristocracias europeias. Os hábitos dos reis e rainhas eram cobiçados e, eventualmente, popularizados. As perucas ganharam alta popularidade neste período, visto que muitas pessoas da realeza estragaram seus cabelos naturais testando diferentes composições químicas para descolorir ou cachear. Um creme de primavera (Primula veris) usado pela rainha Elisabete logo se tornou artigo de moda. A este creme se atribuía os efeitos de preservar, embelezar e clarear a pele, bem como de remover ou impedir o surgimento de rugas. Assim, aos poucos, a cosmetologia se afastava da medicina.

Nos séculos XVII e XVIII, a maioria dos cosméticos ainda era feita em casa, pois os sabões industrializados eram muito caros devido aos impostos. Neste período, a descoberta de novos compostos e o isolamento de novos elementos favoreceram os estudos da química inorgânica. Os óleos essenciais eram melhor compreendidos e novos processos industrias para tinturas, gorduras e sabões passaram a ser utilizados na produção de cosméticos. Entretanto, a composição dos cremes e loções não mudara muito, consistindo basicamente em banha de porco, sebo, cera branca e amarela e óleos essenciais. Diversos países introduziram leis para controlar o uso dos venenos conhecidos depois que, na Itália, uma mulher chamada Teofânia dirigiu uma escola para ensinar mulheres a preparar loções contendo arsênico. Tais preparados, além de clarear a pele, também eliminavam pessoas indesejadas (o arsênico envenenava os usuários – como os desprevenidos e indesejados maridos dessas esposas!). Episódios como este na Itália impulsionaram o interesse pela toxicologia, de modo que ela se consagrou como um ramo da ciência. A propaganda de produtos cosméticos em jornais e revistas também começava a ser discretamente praticada.

Cosméticos após a revolução industrial

A história dos cosméticos forma uma narrativa paralela à história da humanidade, evoluindo junto a ela, conforme ilustrado na linha do tempo apresentada.

Os cosméticos ganharam mais popularidade a partir do século XIX.

No século XIX, a evolução industrial trouxe novas matérias-primas para a fabricação de cosméticos mais variados e mais baratos, por exemplo: ureia, ácido benzóico, soda, glicerina, peróxido de hidrogênio, óleo mineral refinado, vaselina, talco etc. O trabalho de Thomas Graham sobre colóides e emulsões publicado em 1861 e a descoberta do bórax em 1856 permitiram a obtenção dos verdadeiros “cold creams”, mais estáveis que o unguento de Galeno 1. Por outro lado, este período denominado de Era Vitoriana na Inglaterra, trouxe mais conservadorismo para os países anglo-americanos. Enquanto na França as mulheres usavam maquiagem livremente e a fabricação de cosméticos foi rapidamente desenvolvida, na Inglaterra e nos EUA, o preconceito com esses produtos só cessou após a I Guerra Mundial.

No século XX, a fisiologia da pele e dos cabelos passou a ser mais bem estudada. Por volta de 1920, pesquisas básicas começaram a ser realizadas para melhor compreender os efeitos do ato de barbear e de aparar os pelos. Em 1928, foi vendido nos EUA o primeiro protetor solar industrializado, contendo como ingredientes ativos o cinamato de benzila e o salicilato de benzila. Os grandes nomes da indústria cosmética no século XX estavam estabelecendo-se, principalmente nos EUA. Personalidades como Helena Rubinstein, Elizabeth Arden, Cheesebrough-Ponds, Charles Revson (Révlon), Max Factor, Procter e Gamble, Roger e Gallet tornaram-se referências.

Além disso, no período entre as Guerras Mundiais, a indústria cosmética floresceu nos EUA, apesar de se acreditar que os perfumes e cosméticos franceses eram os melhores. A disponibilidade de matérias-primas era uma grande vantagem na América do Norte e muitas empresas europeias migraram para lá. Como o mercado cosmético representava um grande volume de vendas, a purificação e a adaptação para o uso humano de ingredientes descobertos em outras indústrias fora economicamente viável (por exemplo, os silicones). Com a fabricação em larga-escala de cremes, loções e outros produtos a base de água, os problemas de estabilidade e de segurança emergiram. Em consequência, os principais mercados formularam suas legislações voltadas a regulamentar os cosméticos, como o Federal Food, Drug and Cosmetics Act em 1938, nos EUA, ou a EC Cosmetics Directive em 1976, na União Europeia.

Contemporaneamente, diversos ingredientes ativos têm surgido e se estabelecido no mercado cosmético, o que possibilitou inclusive a distinção dos cosmecêuticos. Por exemplo, o uso de alfa-hidróxiácidos (AHAs) a partir de 1992, como esfoliantes químicos e redutores de sinais do envelhecimento. Ou também o uso de enzimas, vitaminas e antioxidantes, carreados ou não em sistemas especiais como os lipossomas, as ciclodextrinas, as nanopartículas e alguns polímeros. Ainda, numa abordagem menos tradicional, há os nutricosméticos, que se originaram na França em 1995, após um estudo caracterizar que os licopenos e betacarotenos consumidos oralmente migram para as camadas externas da pele, onde oferecem proteção contra os raios solares. Outros autores também citam como tendência a certificação de produtos orgânicos e os ingredientes obtidos por processos biotecnológicos. Novos materiais surgem de tempos em tempos, como os grafenos, que eventualmente poderão ser úteis também na indústria da beleza.

Mais do que a tecnologia, é interessante notar o impacto de fatores políticos e sociais sobre a indústria cosmética, como a busca por métodos de ensaio de eficácia e segurança alternativos ao uso de animais; assim como a busca por produtos que sejam mais verdes, mais naturais, mais orgânicos, Halal, Kosher, entre outras certificações.

Enfim, percebe-se que houve um salto na evolução tecnológica, especialmente no século XX. Agora, resta-nos observar o que ainda está por vir e tentar compreender como a sociedade vai encarar a indústria da beleza nas próximas gerações…

História da cosmetologia da modernidade ao século XXI
A evolução da tecnologia de cosméticos
Fonte: Souza, 2015.

Referências:

1. BUTLER, H. (Ed.). Poucher’s perfumes, cosmetics and soaps. 10th. ed. Dordrecht: Kluwer Academic Publishers, 2000. Cap. 2.

2. FISHMAN, H. M. Cosmetics, Past, Present, Future. In: SCHLOSSMAN, M. L. (Ed.). The chemistry and manufacture of cosmetics. 4th. ed. Vol. 1. Carol Stream, IL: Allured Books, 2009. Cap. 1.

3. MIGUEL, L. M. Tendências do uso de produtos naturais nas indústrias de cosméticos da França. Revista Geográfica de América Central, v. 2, n. 47E, p. 1-15, 2011.

4. WANG, H. D.; CHEN, C.; HUYNH, P.; CHANG, J. Exploring the potential of using algae in cosmetics. Bioresource Technology, v. 184, p. 355-362, maio 2015.

5. SOUZA, I. D. S. Prospecção no setor cosmético de cuidados com a pele: inovação e visão nas micro, pequenas e médias empresas. 2015. 459f. Tese (Doutorado). Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto – Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto, 2015.

Ivan Souza

Ivan Souza

Coordenador de Conteúdo
Farmacêutico Industrial pela Universidade Estadual de Maringá (UEM). MBA em Gestão Empresarial (UEM). Doutor em Ciências pela Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo (USP). Experiência em pesquisa e desenvolvimento de inovações no setor cosmético e farmacêutico.

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