Você já deve ter ouvido a frase “as crianças são o futuro da nação”. Com tanta gente falando sobre isso ou reproduzindo e adaptando esta frase, fica um pouco confuso rastrear os documentos até o autor original desta máxima! Uma adaptação interessante atribuída a Jhone Carrinho diz que: “As crianças não são apenas o futuro da nação. São o nosso presente. O nosso presente que ignoramos e deixamos de lado”. Embora um tanto intensa, tal assertiva não é totalmente exagerada. E se as crianças são o futuro da nação… são também o futuro da profissão cosmética. Será que estamos preparando as nossas crianças, os nossos jovens, para atuar profissionalmente na indústria cosmética do futuro?

Desde 1959, os profissionais da indústria cosmética nos países mais representativos são organizados e representados pelas Sociedades afiliadas à Federação Internacional das Sociedades de Químicos Cosméticos (IFSCC). Segundo a IFSCC, a entidade hoje conta com 47 Sociedades afiliadas, que representam 57 países e mais de 15.000 membros, sob o propósito maior de promover a ciência cosmética. No Brasil, a IFSCC é representada pela Associação Brasileira de Cosmetologia (ABC), que desde 1973 compartilha dos ideais da IFSCC e busca o avanço da cosmetologia nacional. Na verdade, a maneira como essas sociedades de profissionais da cosmetologia estão organizadas globalmente é muito mais eficiente que em outras indústrias. No setor farmacêutico, por exemplo, não se vê algo proporcionalmente semelhante.

O jovens são o futuro da indústria cosmética.
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Além disso, estas sociedades não congregam apenas profissionais. Universidades, fabricantes de produtos cosméticos e de matérias-primas costumam manter uma relação muito próxima com essas Sociedades, já que estão diretamente relacionados com o progresso do setor. Essa diversidade de sujeitos participando nesse sistema de sociedades se evidencia inclusive no próprio nome de algumas delas, sendo que uma vertente foca nos profissionais (químicos cosméticos!) e a outra na cosmetologia como um todo. Em geral, busca-se a evolução da ciência cosmética por meio do intercâmbio científico em conferências e eventos educativos; da divulgação da ciências em publicações fomentadas pelas Sociedades e também pela oferta de prêmios e bolsas aos trabalhos mais promissores.
O Cosmética em Foco fez uma busca por programas exclusivamente destinados a incentivar os jovens que ambicionam seguir uma carreira na indústria cosmética. Embora a nossa busca não tenha sido exaustiva, infelizmente não foi fácil encontrar exemplos de iniciativas com tal propósito. De imediato, identificamos que a IFSCC oferece o prêmio Henry Maso para Jovens Cientistas Cosméticos que tenham realizado alguma contribuição para a cosmetologia e publicado seus achados na Revista IFSCC nos últimos dois anos.

Outros exemplos de iniciativas interessantes são as modalidades de bolsas oferecidas pelas Sociedades de Químicos Cosméticos na Austrália (ASCC) e também em Ontário, no Canadá (SCC Ontario Chapter). Na Austrália, a ASCC reconhece que as oportunidades locais para se formar em ciência cosmética são limitadas, de modo que oferece um fundo educacional para cidadãos australianos e neozelandeses que concluírem algum dos cursos de graduação ou especialização listados. Já no Canadá, a entidade oferece uma bolsa de até US$ 1000,00 para estudantes de Graduação ou Ensino Médio que planejam realizar uma pesquisa relacionada à ciência cosmética. Em Ontário, a organização também facilita a interação entre as indústrias e os Programas de Graduação em Ciência Cosmética, no sentido de oferecer vagas de estágio e formação prática para esses futuros profissionais.

Profissionais incentivam jovens a seguir carreira na indústria cosmética.
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Surpreendentemente, a Sociedade de Cientistas Cosméticos no Reino Unido (SCS) parece levar bastante a sério o fato de que os jovens e crianças garantem o futuro da profissão e inovaram com um programa modelo chamado “Scrub Up on Science” (tradução livre: Esfregue-se com a Ciência). Tal programa consiste em um website que fornece gratuitamente recursos práticos que podem ser aplicados em escolas de Ensino Médio, para que os alunos se familiarizem com as técnicas e processos da indústria cosmética. Além dos experimentos e atividades, o programa também envolve uma competição, em que os alunos desenvolvem uma formulação cosmética, e depois apresentam-na perante um juri com os detalhes técnico-científicos. Definitivamente, um benchmark social para todos os que se preocupam com o futuro da profissão.

A redação do Cosmética em Foco tentou contatar a ABC no Brasil, por meio de seu serviço de atendimento no website, a fim de conhecer melhor os seus projetos neste sentido. Infelizmente, não obtivemos resposta. Tal informação também não estava clara no website da ABC até a data da publicação deste texto. De qualquer forma, acreditamos que a ABC entende a importância deste assunto e deve ter incluído novos projetos em seu planejamento. Nos últimos anos, a ABC passou a oferecer desconto para os alunos de graduação que queiram participar do Congresso Brasileiro de Cosmetologia, mas isso não atrai diretamente jovens que ainda não optaram pela profissão.

Talvez, o Brasil ainda não enfrente as mesmas dificuldades de oferta de mão de obra qualificada como na Austrália, por exemplo. Mas, até quando vamos desfrutar desta oferta excessiva?

Além disso, é comum ouvir reclamações de nossos colegas, em feiras e congressos, sobre o tanto de estudantes participando do evento. Há uma cultura de que estudantes são ruins para o negócio porque consomem tempo e não geram vendas. Talvez… precisemos substituir velhos hábitos por atitudes mais inclusivas… os estudantes de hoje podem ser os nossos chefes em cinco ou dez anos… pois, no mundo contemporâneo, está cada vez mais comum encontrar CEOs jovens o bastante para não saber o que é um LP. Enfim, hoje os estudantes preenchem esses eventos… será que eventos com poucos estudantes é realmente o que procuramos?