Principais causas da queda capilar

Alopécia androgenética, seus fatores e consequências

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Estima-se que o couro cabeludo contenha aproximadamente 100.000 fios de cabelo, sendo que fios loiros geralmente apresentam maior quantidade e fios ruivos apresentam quantidade reduzida. A estimativa de perda natural de fios de cabelos varia de 35 a 40 fios diariamente. Ou seja, esta é a perda estimada para um indivíduo saudável.

No entanto, nem sempre a perda de fios de cabelo corresponde ao estimado. A perda exagerada de cabelo (alopecia) é um distúrbio dermatológico reconhecido há mais de 2000 anos. Apresenta-se como distúrbio comum em todo o mundo e afeta aproximadamente 2% da população mundial.

Alopecia androgenética está entre as principais queixas de pacientes aos dermatologistas.
Foto: spukkato / freepik.com

No Brasil, a alopecia está entre as dez queixas dermatológicas mais frequentes, se considerarmos pacientes de 15 a 39 anos. A alopecia androgenética (AAG) é a causa mais comum de alopecia em ambos os sexos. Sua principal característica é a alteração do ciclo do cabelo, levando à miniaturização folicular progressiva com conversão de fios terminais em fios mais finos, curtos e menos pigmentados (brancos), denominados velos. Mesmo sendo incidente em todas as raças, aparentemente há menor prevalência de AAG em asiáticos e afrodescendentes, quando comparados a caucasianos.

A progressão da alopecia é variável, sendo geralmente mais pronunciada quanto mais cedo tiver início. Em pesquisa realizada com meninos de 15 a 17 anos, sinais precoces de calvície puderam ser observados em até 14% deles. Mais de 50% dos homens apresentam algum grau de calvície após os 50 anos. Em apenas 5% dos homens a calvície assume distribuição difusa, lembrando o padrão feminino, o que permite evidenciar que grande maioria dos casos masculinos se apresenta em níveis mais pronunciados.
Com relação às mulheres, a maior incidência de AAG ocorre após os 50 anos, com aproximadamente 30% de incidência por volta dos 70 anos. Segundo estudos realizados, 80% das mulheres que sofrem de alopecia apontaram efeitos negativos desta em suas vidas, sendo que 75% declararam baixa autoestima e 50% indicaram vivenciar problemas sociais.

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Sabe-se que o folículo piloso possui mecanismo de controle individual, que pode ser influenciado por diversas substâncias, tais como hormônios, citocinas e fatores de crescimento. Influências do ambiente também podem alterar o funcionamento do folículo piloso, como deficiências nutricionais e exposição à radiação ultravioleta. Os mecanismos que controlam o ciclo do fio de cabelo estão localizados no próprio folículo piloso e resultam da interação de moléculas reguladoras e seus receptores. Evidências sugerem que a papila dérmica e seus fibroblastos influenciam no crescimento folicular, especialmente na proliferação e diferenciação celular da matriz do folículo piloso. Isso posto, é possível compreender que a queda de cabelo representa uma desordem do ciclo do folículo piloso a partir de causas multifatoriais.

Quais as principais causas da alopecia androgenética?
Foto: katemangostar / freepik.com

Citaremos a seguir algumas das causas mais relevantes para a alopecia:

Genética / Hormonal

Muito embora existam evidências suficientes quanto ao envolvimento genético em quadros de alopecia androgênética (AAG), os fatores hereditários que contribuem para tal ainda são pouco alucidados. Sabe-se que eles são mais relevantes para alopecia masculina que feminina. O que se sugere atualmente é que o padrão de herança seja poligênico. As maiores evidências obtidas quanto a participação genética na alopecia foram a partir do sequenciamento do gene do receptor de androgênio (gene AR – androgen receptor), localizado no cromossomo X. Alguns polimorfismos encontrados neste gene (tais como extensão da sequência GCC, redução de repetições CAG e presença do fragmento de restrição STUL) relacionam-se a maior atividade do gene AR e consequente maior probabilidade de calvície.

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Doenças autoimunes

Um exemplo de doença autoimune a ser citado é a tireoidite de Hashimoto, doença autoimune tireoidiana de maior incidência na população em geral. Há presença de linfócitos (células imunológicas) infiltrados na glândula tireoide, que causam destruição gradual do tecido tireoidiano, podendo desencadear o hipotireoidismo subclínico ou hipotireoidismo de fato. Caso se desencadeie quadro de hipotireoidismo (subclínico ou de fato), a perda capilar difusa pode acontecer. A função reduzida da tireoide (hipotireoidismo) pode proporcionar oleosidade e maior espessura ao couro cabeludo, com presença de pelos grossos esparsos ou mesmo calvície real. Já a função exacerbada da tireoide (hipertireoidismo) resulta em pelos finos esparsos. Desta forma, faz-se fundamental o tratamento de distúrbios da tireoide com acompanhamento de um endocrinologista, para que o crescimento normal de cabelo seja retomado.

Uso de medicamentos

A alopecia tem sido observada como um dos principais efeitos colaterais do tratamento antineoplásico, imunossupressor e de muitos outros medicamentos, tais como medicamentos utilizados no tratamento da artrite, doença de Parkinson, medicamento com ação hormonal androgênica (como esteróides anabolizantes), contraceptivos orais, beta-bloqueadores e anti-inflamatórios não-esteroidais (AINEs). Deve-se destacar que efeito colateral é toda reação indesejada que pode ser observada quando do uso do medicamento. Em sendo assim, a queda de cabelo pode estar presente em pacientes que fazem uso dos medicamentos citados, mas não necessariamente acontecerá.

Fatores psicológicos

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Muitas são as situações de estresse extremo às qual as pessoas estão submetidas atualmente.

Esse tipo de estresse altera o equilíbrio de muitas substâncias químicas do organismo, fazendo o que o corpo trabalhe de forma adaptada para facilitar a função de tecidos específicos.

O conjunto de substâncias químicas produzidas pelo corpo em situações de estresse é capaz de desencadear quadros de hipertensão, arritmia, gastrite, distúrbios neurológicos e/ou psiquiátricos, alergias, doenças autoimunes e, dentre tantos outros quadros, queda de cabelo. Ao exporem animais de laboratório a estresse sonoro contínuo por período de 24 horas, pesquisadores descobriram que, em situações de estresse, a liberação de substâncias químicas, como o NGF (fator de crescimento neural), na derme atrai células inflamatórias do sistema imunológico para próximo dos folículos pilosos. Essas células inflamatórias produzem e secretam grande quantidade de substâncias que estimulam a inflamação ao redor dos folículos (chamada inflamação neurogênica). Essa inflamação estimula a morte das células (apoptose) na região do folículo piloso, que é responsável pelo crescimento capilar. Se as células desta região morrem, há queda de fios de cabelos em quantidade maior que o normal.

Dieta

Os cabelos normalmente são sensíveis às bruscas mudanças de hábitos alimentares. Estudos apontaram que a restrição calórica rigorosa inibiu a atividade das células da matriz (responsáveis pelo crescimento dos fios) dos cabelos, favorecendo a queda capilar de 2 a 5 meses após o início da restrição alimentar.

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Alguns minerais são essenciais para a manutenção da qualidade e da quantidade de fios de cabelo, tais como zinco e ferro. O zinco é um mineral essencial, pois está presente em grande parte dos hormônios, mediadores químicos e enzimas. Por estar envolvido na atividade de metaloenzimas, sinalização celular e imunomodulação, o zinco está diretamente relacionado à promoção do crescimento de cabelos saudáveis e melhora no controle da queda. É por isso que dietas restritivas que causam depleção de zinco podem proporcionar aumento da queda capilar. Além das dietas restritivas, a redução de zinco disponível no organismo pode ser causada por outros fatores, tais como: cirurgias bariátricas, deficiências em pacientes que ingerem pouco zinco durante a alimentação, pacientes que apresentam problemas digestivos de absorção desse mineral, aumento da perda de zinco pelas vias digestiva e urinária, além do uso de medicamentos que interferem na absorção do zinco. Em estudo realizado em universidade do Japão, a reposição de zinco para pacientes que apresentaram queda capilar foi 100% efetiva quanto à redução da queda.

Atualmente, muitos são os fatores alimentares que favorecem a queda de cabelos. A maior facilidade de acesso da população a alimentos processados, em relação a alimentos de origem natural, é um deles. O uso de laxantes, tendo em vista o esvaziamento acelerado do trato digestivo, reduzindo a absorção de nutrientes de alimentos ingeridos, é outro. Além destes fatores, casos de anorexia e bulimia podem estar associados a quedas capilares, uma vez que pacientes que sofrem destas condições percebem cabelos mais fracos, escassos e com alterações em seu crescimento (crescimento inferior ao normal).

Atividade física

A atividade física é responsável por liberar mediadores químicos, como a endorfina, que proporcionam sensação de bem-estar. Uma vez que as pessoas ficam mais felizes e relaxadas, é possível que a queda de cabelo relacionada ao estresse do cotidiano seja reduzida. Além disso, a função respiratória de pessoas que praticam atividade física apresenta-se melhorada, o que torna mais fácil a oxigenação dos tecidos como, por exemplo, do couro cabeludo. A melhora no metabolismo das estruturas capilares pode ser responsável pela redução na velocidade de queda capilar, até mesmo para pessoas com predisposição genética à queda.

Outra correlação que é possível estabelecer é que pessoas que praticam atividades físicas com frequência geralmente dedicam maior atenção à alimentação. Desta forma, além dos mediadores químicos e da oxigenação, os fios de cabelo recebem os nutrientes necessários para se manterem saudáveis e, portanto, evita-se a queda.

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Fatores Externos

Dois dos principais fatores externos que influenciam na saúde dos cabelos são o cigarro e a poluição. No caso do primeiro, o tabagismo é capaz de provocar envelhecimento precoce, com maior tendência a lesões provocadas pelo sol (inclusive câncer de pele) e deficiências na circulação sanguínea. Pessoas que fazem uso de cigarro com frequência costumam ter cabelos desidratados, que quebram com mais facilidade e que apresentam mais pontas duplas. Além disso, são mais predispostas a dermatites de couro cabeludo, o que também compromete os fios de cabelo. Estudos evidenciam que os pacientes predispostos à queda capilar podem ter o quadro acelerado ao fumarem com frequência, apresentando calvície de forma ainda mais precoce que não fumantes.

Já a poluição, segundo estudos científicos, seria responsável por aumentar o estresse oxidativo das células do couro cabeludo, alterando seu comportamento e, assim, promovendo o crescimento da área calva. Neste caso, os principais vilões são os radicais livres oriundos da poluição. No entanto, radicais livres estão em contato com o organismo em muitas outras situações: eles se formam em nosso corpo devido à alimentação inadequada, tabagismo, consumo de álcool, uso de drogas, estresse psíquico, exposição exagerada ao sol e a inúmeros outros fatores. Os impactos são evidentes sobre os cabelos, mas também sobre a pele, através do aparecimento de acne, psoríase, rosácea, desidratação cutânea e alergias por exemplo.

Conhecedores das variadas possíveis causas de queda de cabelo, resta-nos descobrir quais são os tratamentos disponíveis para este distúrbio que acomete tantos homens e também mulheres de variadas idades, raças e estilos de vida.

 

Referências:

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