Triclosan

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Disponível no mercado desde 1972, o Triclosan é um agente bactericida efetivo contra uma ampla gama de bactérias gram-positivas e gram-negativas, bem como fungos e bolores.  O mecanismo de ação deste antimicrobiano consiste em bloquear a biossíntese lipídica dos micro-organismos, inviabilizando o seu crescimento e a sua proliferacão. Do ponto de vista físico-químico, o Triclosan é um composto não-volátil de elevada estabilidade química, levemente solúvel em água e altamente solúvel em substâncias de caráter graxo1. Além disso, ao longo desses anos, acumulou-se uma considerável biblioteca de estudos toxicológicos que garantem a segurança do Triclosan para a aplicação sobre a pele humana na dosagem recomendada.

Graças a essas características, o Triclosan conquistou o seu lugar no arsenal dos formuladores de produtos para os cuidados pessoais em todo o mundo, já que pode ser facilmente incorporado em uma emulsão sem grandes problemas de compatibilidade ou estabilidade químicas. Geralmente, este ingrediente é utilizado em concentrações que variam de 0,1% em desodorizantes e deo-colônias, até 1,0% em sabonetes para profilaxia cirúrgica. No entanto, o uso do Triclosan difundiu-se principalmente por meio das formulações de cremes dentais (especialmente, para o tratamento de gengivite, já que o Triclosan também exerce uma branda ação anti-inflamatória) e de sabonetes antissépticos de uso doméstico, um segmento que tem crescido nos últimos anos (particularmente, nos países emergentes).

Em contrapartida, as mesmas características que tornaram o Triclosan um “queridinho dos formuladores”, permitiram que se questionasse a segurança do uso deste ingrediente em cosméticos. Em resumo, a polêmica em torno do Triclosan envolve quatro fatores principais:

  1. Por causa de sua afinidade com meios graxos, ou seja, sua lipossolubilidade, este composto é capaz de se acumular nos tecidos adiposos de humanos e animais, originando preocupações quanto aos seus efeitos em longo prazo.
  2. O Triclosan possui uma estrutura química relativamente análoga à de hormônios tireoidianos, de modo que alguns estudos sugerem que ele tenha o potencial de desenvolver uma atividade endócrina e imunológica.
  3. Devido a sua elevada estabilidade, este ingrediente tem baixa biodegradabilidade, podendo permanecer no meio ambiente – na água ou no solo – de alguns meses a muitos anos (dependendo das condições de pH, oxigenação, luz solar etc.).
  4. Por fim, como é plausível para todo antimicrobiano, os micro-organismos podem com o tempo desenvolver mecanismos de resistência ao Triclosan.

De fato, o uso rotineiro de cosméticos contendo Triclosan é um evento que facilita a ocorrência de um desses quatro fatores. Por exemplo, ao se banhar com um sabonete antisséptico com Triclosan, inevitavelmente este composto poderá contaminar rios, solos e lençóis freáticos ao entrar na rede de esgotos. De um modo geral, os principais receios em relação ao uso de Triclosan em produtos cosméticos não dizem respeito à atividade deste composto sobre a pele em si, a qual já foi muito bem caracterizada como segura. O que tem sido questionado recentemente, é se os benefícios oferecidos pelo Triclosan são de fato maiores que os possíveis riscos ambientais e toxicológicos propostos por estudos mais contemporâneos.

Por exemplo, alguns estudos têm sugerido que o acúmulo de Triclosan no meio ambiente tem prejudicado o desenvolvimento natural de alguns animais, como sapos-boi, golfinhos e peixes (veja mais nesta matéria – em inglês), os quais também passam a acumular o composto. Aparentemente, o Triclosan prejudica o funcionamento das fibras musculares e reduz a capacidade locomotora desses animais, tornando a sua sobrevivência mais difícil. Além disso, eventualmente esses animais poderão compor a dieta de seres humanos, de modo que nós possamos então ficar sujeitos aos mesmos efeitos indesejados do Triclosan, observados nos animais. Na verdade, alguns estudos já têm identificado a presença deste ingrediente na urina humana. Note-se que o Triclosan proveniente da dieta representaria uma dose muito maior que a do Triclosan absorvido pela pele!

No entanto, esses estudos ainda são inconclusivos, de modo que não há informações suficientes para que as Agências Regulatórias tomem providências. Nos EUA, por exemplo, o FDA anunciou aos consumidores o seguinte:

  • Sabidamente, o Triclosan não é prejudicial aos humanos.
  • Até o momento, o FDA não tem evidências de segurança suficientes para recomendar aos consumidores que deixem de usar produtos contendo Triclosan.
  • Em função das questões levantadas por estudos recentes do Triclosan em animais, o FDA revisará todas as evidências disponíveis quanto à segurança deste ingrediente.
  • Até o momento, o FDA não tem evidências de que sabonetes antissépticos com Triclosan sejam mais benéficos que sabonetes comuns. Recomenda-se que os consumidores preocupados com o Triclosan utilizem sabonetes comuns.
  • A presença de Triclosan pode ser verificada nos rótulos.

Este anúncio pode ter acalmado os consumidores; mas certamente deixou os fabricantes inquietos. O FDA também iniciou uma consulta pública para uma nova regulamentação na qual se exigirá que produtos para os cuidados pessoais que contenham agentes antissépticos, sejam fundamentados com estudos que comprovem que tais produtos são mais eficientes que os seus similares sem agentes antissépticos (por exemplo, a diferença na eficácia de uma loção corporal com e outra sem Triclosan). Desde novembro de 2013, o público tem 180 dias para comentar a regulamentação e os fabricantes nos EUA terão um ano para apresentar as evidências sobre a eficácia de seus produtos3. Afinal, a lógica é que não vale a pena correr riscos (ambientais e clínicos) se não há verdadeiros benefícios.

Dado que no Brasil esse assunto já foi motivo de polêmica e bastante repercutido na mídia (relembre aqui), é de se esperar que haja mudanças regulatórias por aqui também. Esta possibilidade parece ainda mais plausível se considerarmos que a contaminação com Triclosan já é uma realidade no Brasil. Isto é, um estudo recente mostrou que no Estado de São Paulo cinco dos seis mananciais estudados apresentaram quantidades de Triclosan muito acima dos valores considerados seguros.

Opinião do autor: o uso de antissépticos contribui para que se explore apelos como “elimina 99% das bactérias”. No entanto, apelos do gênero só fazem sentido caso seja observado que o uso desses ingredientes traz resultados melhores que a sua ausência. Quando o Gustavo me deu a missão de escrever esta revisão, eu tinha uma visão formada sobre o assunto. Ao estudá-lo, eu pude repensar algumas práticas. Eu acredito que nós dispomos de alternativas mais interessantes tanto do ponto de vista técnico quanto comercial. Há disponível no mercado tecnologias que nos permitem preservar e selecionar uma microbiota saudável e benéfica. Não seria então mais interessante para o consumidor explorar os efeitos de sua microbiota benéfica? Por que destruir e eliminar algo que é natural, quando a tendência maior é justamente buscar o que é simples, o que é natural e o que é sustentável?

Fontes:
FDA
Montagner, C. C.; Jardim, W. F.; Von der Ohe, P. C.; Umbuzeiro, G. A. Ocurrence and potential risk of triclosan in freshwaters of São Paulo, Brazil – the need for regulatory actions. Environ Sci Poll Res, ago. 2013. DOI 10.1007/s11356-013-2063-5.
Cosmetics Design

Ivan Souza

Ivan Souza

Coordenador de Conteúdo
Farmacêutico Industrial pela Universidade Estadual de Maringá (UEM). MBA em Gestão Empresarial (UEM). Doutor em Ciências pela Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo (USP). Experiência em pesquisa e desenvolvimento de inovações no setor cosmético e farmacêutico.

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